sexta-feira, 30 de novembro de 2012


Disponibilizada a nova edição da Revista Cronos

AssessoRN - Jornalista Bosco AraújoemAssessoRN.com - 15 horas atrás
 *Foto: capa revista/divulgação* O Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA), da UFRN, disponibiliza a mais nova edição da Revista Cronos. Os interessados podem acessar o site: *http://www.periodicos.ufrn.br/index.php/cronos* tendo acesso assim aos artigos, entrevistas e resenhas, produzidos por professores de diversas universidades do Brasil. Neste número a temática é Trans-formações em Gênero, abordado sob diversos aspectos por professores como Edmar Henrique Dairell Davi e Maria Alves de Toledo Bruns, ambos da Universidade de São Paulo (USP), Claudiene Santos ... mais »

quarta-feira, 28 de novembro de 2012


Pense num decassílabo gostoso de ler!
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Peleja virtual de Ismael Gaião (IG) e Júnior Vieira (JV)

IG-  Eu sou um furo de espinho
Que entra como uma cunha
Entre o couro e a unha
Pelo seu dedo mindinho.
Sou um prego no caminho
Entrando no seu pé nu,
Sou almoço de urubu,
Sou o chulé no sapato…
Eu sou o mijo do rato,
Mas sou melhor do que tu.                           
 
JV- Sou um carrasco sem pena,
Eu sou o cocô do gato,
Sou um prego no sapato,
Sou sobejo de hiena.
Eu sou a gota serena,
Pior que cobra urutu,
Sou a bufa do timbu,
A mijada da ticaca,
Veneno de jararaca,
Mas sou melhor do que tu!                           

IG- Sou membro do mensalão
E a pregação de um crente.
Eu sou uma dor de dente
E a mágoa da traição.
Sou um petista ladrão.
Sou um corte com bambu.
Sou filho de belzebu,
Marido de uma “gaieira”
Sou sócio de Cachoeira,
Mas sou melhor do que tu!                           

JV- Eu sou a pior megera,
Doença que cai a língua.
Sou a mula que dá íngua,
Faço medo a besta fera.
Sou a doença que impera
No couro do cururu,
Serro te de caititu,
Que arranca os dedos da mão.
Sou o câncer de pulmão,
Mas sou melhor do que tu!

IG- Sou anão do orçamento
Que roubou nossa nação,
Picada de escorpião
E o coice de um jumento.
Sou pé frio d’um azarento,
Chifrada de boi zebu,
Mordida de pit bull,
Veneno de uma coral.
Sou o fim do carnaval,
Mas sou melhor do que tu!                          

JV- Sou o pior traficante,
Sou um rato de esgoto.
Eu sou o fim do arroto,
Sou patada de elefante.
Sou lepra contagiante,
Doença do gabiru,
Chefe do Carandiru,
Sou ladrão, sou desordeiro,
Estuprador, maconheiro,
Mas sou melhor do que tu!                           
 
IG- Eu boto fogo em mendigo
Que dorme pelas calçadas.
Em veado dou lapadas.
Qualquer criança eu castigo.
Sou a lagarta no trigo,
Na ferida, o tapuru…
Pra mulher sou brucutu,
Pro velho, dor de barriga.
Vivo procur ando briga,
Mas sou melhor do que tu!                           
 
JV- Quando meu pai mata um
Sou eu que assino embaixo.
Eu toco fogo em despacho
E sem remorso nenhum,
Eu provoco zum, zum, zum,
Faço o pior sangangu;
Meu pai cria buruçu…
É genética, a gente herda,
E boto fedor em merda,
Mas sou melhor do que tu!                           
 
IG- Sou um “bebo” pegajoso
Que cospe na tua cara.
Sou ferida que não sara,
Sou covarde e mentiroso.
Sou vagabundo e seboso
E aguado como chuchu.
Sou cobra surucucu
Engolindo um roedor.
Sou freguês mal pagador,
Mas sou melhor do que tu!                           
 
JV- Adoro falar mentira
E desconheço o perdão.
Eu inventei traição,
Tédio, ódio, raiva, ira…
Somente o mal me inspira,
Arranco carnegão cru,
Eu sou pivô de rebu,
Só compro tudo fiado,
Dou em cego e aleijado,
Mas sou melhor do que tu!                           
 
IG- Sou um grande puxa-saco
Sou traidor, inseguro…
Eu vivo em cima do muro,
Sou cafajeste e velhaco.
Jogo um irmão num buraco
Pra ganhar qualquer tutu.
Eu desafio o vodu
Para me dar bem na vida…
Sou justiceiro homicida,
Mas sou melhor do que tu!                           
 
JV- Puxo faca pra irmão,
Com minha mãe eu discuto,
Confesso que fico puto
Se não vejo confusão.
Viro frango, sapatão,
Passo quinau, dou pitu,
Abalei Caruaru,
Lá eu causei terremoto…
Só gente ruim eu adoto,
Mas sou melhor do que tu!               
 
IG- Sou chefe de um arrastão,
Sou decisão que malogra,
Sou a visita da sogra
Quando tem feriadão.
Sou Domingão do Faustão,
Sou sal grosso em cururu.
Sou tarado andando nu
Atrás de uma sodomia,
Sou um padre em pedofilia,
Mas sou melhor do que tu!                           
 
JV- Eu me viro na mazela,
Atrapalho a tua rima,
Sou bomba de Hiroshima,
Eu sou a febre amarela.
Pior que erisipela,
Sou espírito belzebu,
Me viro no cafuçu,
Rezo o credo atravessado,
Deixo o capeta amarrado,
Mas sou melhor do que tu!                           
 
IG- A migo Júnior Vieira
Tô adorando a peleja
Só tá faltando a bandeja
Pra gente fazer a feira…
Nessa nossa brincadeira
Eu me lembrei de Xudu.
Não sou um Zezé Lulu,
Porém não canto tão ruim…
Tu não ganhaste pra mim,
Também não ganhei pra tu!                           
 
JV- Ismael, pra encerrar
Desfaça que eu desfaço.
Me abrace que eu lhe abraço,
Pra quê a gente brigar?
E eu não quero botar
Veneno no teu angu…
Vamos pescar um pacu,
Pois aqui ninguém perdeu…
Nem tu és melhor que eu
Nem sou melhor do que tu!

Colaboração de César Virgilio do Nascimento.











O século 21 do Instituto Histórico

Tribuna do Norte - 28.11.2012.


Yuno Silva - Repórter

Há quase 111 anos, o número 622 da rua da Conceição, na Cidade Alta, serve como endereço para o maior acervo cultural do Rio Grande do Norte. Casa da Memória, como bem disse Câmara Cascudo, a nau do Instituto Histórico e Geográfico está prestes a mudar de comando: no dia 29 de março do próximo ano, data de aniversário do IHGRN, o escritor e articulista Valério Mesquita toma posse como novo presidente da mais antiga instituição cultural do Estado. Ele substitui o procurador aposentado Jurandir Navarro, que por sua vez assumiu o posto após o falecimento de Enélio Petrovich (1934-2012) em janeiro passado.
Adriano AbreuValério Mesquita, futuro presidente, à esquerda: Queremos recuperar, climatizar, digitalizar o acervo para colocar o Instituto nessa nova era
Valério Mesquita, futuro presidente, à esquerda: Queremos recuperar, climatizar, digitalizar o acervo para colocar o Instituto nessa nova era

O desafio da nova diretoria, cuja intenção é imprimir um perfil mais horizontal e participativo à gestão da entidade, resume-se em três palavras: modernização, visibilidade e acesso. O caminho é longo e a missão árdua: "Faremos um levantamento geral do acervo e da segurança desse acervo, da situação financeira e da estrutura física do Instituto", adiantou Mesquita, que recebeu a reportagem da TRIBUNA DO NORTE na manhã de ontem, durante reunião com outros diretores. "Queremos motivar a visita de estudantes e retomar o interesse da população", planeja o novo presidente.

Mesquita adianta que a meta é digitalizar o acervo, informatizar as pesquisas, climatizar as principais salas e facilitar a consulta, inclusive via internet. "É hora de entrar nessa nova era da comunicação", acredita o presidente eleito. Porém, a falta de recursos configura-se como principal limitador para se atingir qualquer dos objetivos. Para tentar driblar a dificuldade financeira, a nova diretoria - antes mesmo de tomar posse - já articula na Assembleia Legislativa a apresentação de emendas ao orçamento do Governo; e busca formalizar parcerias com instituições públicas e privadas. A elaboração e inscrição de projetos em editais específicos para entidades museológicas também está em pauta. 

Vale registrar que, por enquanto, ainda não há um orçamento definido para efetuar a modernização e as mudanças pretendidas - os valores serão levantados de acordo com o andamento dos trabalhos da nova diretoria do Instituto Histórico e Geográfico do RN. "O Governo precisa considerar a cultura como uma das prioridades do Estado. Claro que há outras carências, mas não podemos deixar que ela seja esquecida", disse.  Valério Mesquita adianta que Iphan, Crea e Corpo de Bombeiros serão as primeiras instituições procuradas: "Nossa estratégia operacional começa por garantir a segurança do acervo".

Atualmente a única fonte de renda do IHGRN é a mensalidade dos cerca de 200 sócios, uma contribuição de apenas R$ 10 por mês, mas atualmente menos de 50 pessoas estão em dia. A falta de sustentabilidade é tão complicada, que a folha de pagamento só estão fechando com a venda de livros doados e outros que estavam em grande quantidade no acervo - o já as contas de água e luz estão sendo pagas pelo atual presidente Jurandir Navarro. A instituição possui sete funcionários, sendo quatro cedidos pela Fundação José Augusto. "Temos pressa e precisamos agilizar a reestruturação do Instituto para o período da Copa", verificou o advogado Carlos Gomes, que assumirá o cargo de secretário-geral. Gomes foi responsável pela atualização do estatuto original, de 1927, que passou a atender as novas diretrizes do Código Civil. Carlos Gomes lembrou que o IHGRN possui mais de 30 mil livros, coleções de jornais e centenas de milhares de documentos.

Porão será usado como novo cômodo para o acervo

A nova diretoria também pretende promover encontros periódicos para realizar debates ser "personalização dos temas", avisa Ormuz Simonetti, escritor, genealogista e vice-presidente na próxima gestão. "É um desafio grande reerguer o IHGRN, e temos que contar com apoio de toda a sociedade", acredita, informando que a marca do grupo que assumirá o Instituto em março de 2013 é o companheirismo. "Tudo será decidido em colegiado".

Ormuz reconhece que boa parte do acervo está em condições precárias, e que muitas estantes estão há mais de 40 anos sem um tratamento adequado. "Os livros precisam de limpeza e possíveis focos de cupim precisam ser exterminados". Outro detalhe que ele chama atenção é o porão, que nunca foi aberto. "Precisamos de espaço e é bem possível que o porão sirva de abrigo para os cupins", arrisca.

Francisco Fernandes Marinho, sócio e voluntário do Instituto, responsável pela organização do catálogo da entidade, ressalta que documentos seculares estão em risco sem a manutenção do espaço. "O zelador, seu Manoel, tenta controlar os cupins", disse Marinho, que quer ver o IHGRN recuperado e saber o que existe. "Tem muita coisa que desconhecemos aqui ainda".

Frágeis histórias de papel

Sob uma janela aberta nos fundos da biblioteca principal do Instituto, em meio a livros, revistas e jornais antigos, muita poeira e mofo, o historiador Augusto Medeiros, 27, folheava publicações em busca de informações para sua dissertação de mestrado. Augusto está pesquisando sobre o Café São Luiz, na Cidade Alta, e a movimentação do Grande Ponto entre os anos de 1953 e 1980 - recorte histórico de seu estudo. "Aqui encontro um acervo riquíssimo, fundamental para se conhecer detalhes da história do RN", disse o historiador, que considera o estado de conservação satisfatório. "Os jornais mais antigos é que estão mais frágeis".

Augusto Medeiros tem estado no IHGRN com maior frequencia desde 2011: "Estarei por aqui até o último dia do mestrado, em março do próximo ano".

A NOVA DIRETORIA DO IHGRN

Valério Mesquita - presidente

Ormuz Simonetti - vice-presidente

Carlos Gomes - secretário geral

Odúlio Medeiros - secretário adjunto

George Veras - diretor financeiro

Eduardo Gosson - diretor adjunto

José Targino Araújo - orador

Edgar Dantas - diretor da biblioteca, arquivo e museu

Conselho fiscal

Eider Furtado

Paulo Pereira dos Santos

Tomislav Femenick

Lúcia Helena Pereira

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A Revolta Comunista de 35 em Natal. (III)








André Batista( ao centro, com camiseta vermelha, natural de Ipanguassu/RN, conheceu "Doidinho", filho de "Luiz de Né", no distrito Sacramento, hoje município do Vale do Assú, como um homem incapaz de entender um Ó com uma quenga. A foto de sr. André é de 2006.




AGENTE DA POLÍCIA ANTECIPOU A REVOLTA



“A quartelada de 1935 foi um dos grandes erros cometidos por Luiz Carlos Prestes, pois as condições eram adversas (1). A quartelada foi decidida em Moscou, pela III Internacional Comunista. Naquele tempo os comunistas tinham a sua Internacional, assim como hoje os sociais-democratas tem a sua Internacional Socialista. 35 foi arquitetada em Moscou com base em relatórios falsos, triunfalistas, elaborados por Miranda, um professor, que era o Secretário-geral do PCB. Miranda mandava para Prestes e o Comintern relatórios e subsídios que não correspondiam à realidade. Em 1934, Prestes saiu da União Soviética para liderar a revolução no Brasil, onde chegou com passaporte português, com nome de Antônio Vilar. Prestes tinha o renome de “Cavaleiro da Esperança” e pensava que isso iria contribuir para êxito da revolução. Os tenentes, os que participaram da Coluna Prestes-Miguel Costa, não tinham o cunho ideológico que Aliança Nacional Libertadora tinha. A ANL queria o fim do latifúndio, nacionalização das empresas estrangeiras, a moratória, a reforma agrária, etc. Isso era um avanço para a época. Antes de 35, Prestes, a personalidade mais importante da época, foi convidado para chefiar o comando militar da Revolução de 30, mas ele não aceitou. Foi outro erro. Apesar de ser um movimento intra-oligárquico  e burguês, Prestes teria dado uma guinada à esquerda no tenentismo. Então, o movimento de 35, foi mal pensado e mal encaminhado. Eu digo que não nos envergonhamos de 35, pois fazemos autocrítica”, disse o escritor pernambucano Paulo Cavalcante, durante uma conferência sobre o “Levante Armado de 35”, proferida no auditório da reitoria da UFRN, na manhã de 26 de setembro de 1985.
Ele veio a Natal a convite da Universidade e dos cursos de Mestrado em Educação e História da UFRN, promotores do Seminário “Sociedade e História do RN nas décadas de 20 e 30”, para falar sobre comunismo e lançar o seu último livro de memórias, “A Luta Clandestina”, no qual relembra fatos que presenciou como militantes do Partido Comunista Brasileiro-PCB, no Estado de Pernambuco.





JUDEU TRAIU A REVOLUÇÃO

Cavalcante reconhece que a revolução comunista de 1935 (ele afirma que não foi uma quartelada comunista mas da Aliança Nacional Libertadora) marcou com graves seqüelas o Partido Comunista do Brasil-PCB que, apesar das dolorosas lições aprendidas não corrigiu seus erros e tentou reeditar 35 em 1950, através do célebre “Manifesto de Agosto”, que pregava a extinção do Exército Brasileiro e a sua substituição por um “Exercito Popular Revolucionário”.
“O esquerdismo e o sectarismo da década de 30 retornaram em 1950. Somente depois de 1957 o PCB levou em conta as experiências de 35”, segundo Paulo Cavalcante. “Com a campanha nacional de “O Petróleo é Nosso” foi retomada uma política sensata e nos curamos do sectarismo com a última campanha pela anistia. No partido havia homens bem intencionados mas que não se conduziam de acordo com a realidade. Lênin dizia que “ai do partido que ocultar do povo os seus erros”. Nós nos curamos dos erros do passado. A linha do PCB hoje é saudável, de frente ampla, de manter as conquistas democráticas de Tancredo e Sarney e aprofundá-las”.
Depois de falar sobre a tática e a estratégica do Partidão, a linha política do PC do B, religião e as oligarquias nordestinas, Paulo Cavalcante foi indagado sobre a opinião de Prestes a respeito da intentona de 1935.
“Prestes acha que 35 foi um movimento válido. Ele rompeu amizade comigo. Prestes se recusa a fazer autocrítica a respeito de 35. Só aceita autocrítica depois de 45. “35 evitou que Plínio Salgado fosse Ministro da Educação de Getúlio Vargas”, dizia Prestes. Mas o Estado Novo, a ditadura de Getúlio, foi o fascismo, o integralismo sem Plínio Salgado”.
E sobre os propalados assassinatos de oficiais legalistas, no Rio de Janeiro, durante a insurreição nas guarnições militares? É verdade que mataram oficiais legalistas quando estavam dormindo?
“Olha, o escritor Hélio Silva, um conservador, portanto uma pessoa que nunca esteve simpatias pelo comunismo, autor do célebre livro “A Revolta Vermelha”, manuseou laudos médicos, inquéritos e relatórios policiais, processos, boletins... Em nenhum documento oficial ele encontrou qualquer referência de que tenham morrido oficiais legalistas dormindo. Nos relatórios dos delegados auxiliares de Recife e do Rio de Janeiro, Etelvino Lins de Albuquerque e Hugo Belens Porto, respectivamente, e os documentos estudados por Hélio Silva, não há uma referência, nem de leve, as mortes de oficiais dormindo. Essa história é uma deslavada mentira. Os quartéis estavam de prontidão. Dos dois lados quem morreu estava com farda de combate! Dizer que morreram ou fuzilaram oficiais dormindo é uma ofensa que se repete todos os anos, é uma balela que atinge a dignidade dos oficiais mortos dos dois lados, pois eles estavam de prontidão e não poderiam dormir. Essa versão foi criado no Estado Novo e repetida como um realejo para atingir a dignidade dos oficiais e enganar a opinião pública, como recentemente fez o general Euclides Figueiredo”.
Por que o movimento começou em Natal?
Bom. Muniz de Faria, militar reformado da Polícia Militar de Pernambuco, foi enviado do Rio de Janeiro pela ANL, para contactar com Recife e Natal. Ele não chegou a vir a Natal, pois viajou de navio do Rio para Recife, onde mantivera contacto com o Comitê Central do PCB. Faria chegou de madrugada e disse a Alceu Coutinho que o movimento tinha sido detectado pela inteligência inglesa e pelo Governo e que tinha que ser sustado, pois havia interesse do governo na sua eclosão em dias diferentes. Coronel Muniz de Faria não fez nada porque a revolução já estava nas ruas do Recife. Isto é, não deu tempo para chegar a contra-ordem. Infiltrado no PCB havia um judeu brasileiro, conhecido por Maurício, que trabalhava para a polícia. Dias antes da insurreição, no Recife, ele ficou perguntando pelas armas que “vieram da União Soviética”, “Não existem essas armas, vamos fazer a revolução com as nossas próprias armas”, responderam os revoltosos do Recife. De lá, esse tal Maurício veio para Natal e aqui manteve contatos com a tarefa de precipitar o movimento. Hoje não se sabe que fim levou esse tal Maurício”, respondeu o escritor Paulo Cavalcante.
Segundo ele a ditadura getulista, o Estado Novo, viria de qualquer maneira e que a insurreição de 1935 foi somente um pretexto e não a causa de sua implantação pelo grupo militar que mantinha Getúlio Vargas no poder, Hitler e Mussolini estavam no poder na Alemanha e Itália e a ascensão mundial do fascismo foram os motivos principais que levaram o Brasil ao “Estado Novo”, principalmente depois da divulgação do “Plano Cohen”, documento falso elaborado pelo capitão Mourão Filho, do Estado Maior do Exército e Chefe do serviço secreto da Ação Integralista Brasileira.
“Não vim aqui para repudiar o movimento de 35, mas para fazer uma autocrítica. Por causa do espírito tenentista, golpista e pequeno burguês, que predominava no Exército, 35 foi um movimento precipitado, não tenho dúvidas”, completou Paulo Cavalcante, autor de quatro volumes de memórias (“O Caso eu conto como o caso foi”).
No final de sua conferência, Cavalcante homenageou três comunistas do Rio Grande do Norte, mortos; Luiz Maranhão Filho, Vivaldo Ramos de Vasconcelos e Hiram Pereira de Lima. Vivaldo Vasconcelos, em Natal, foi elemento de ligação entre os que faziam os preparativos para a insurreição militar de 23 novembro de 1935, que ontem completou 50 anos.

NADA DE ALIANÇA.  FOI COMUNISTA MESMO

O professor Homero Costa, da UFRN, que faz mestrado na Universidade de Campinas-SP, estudioso dos movimentos comunistas no Brasil, disse durante o seminário que a revolução de 1935, ocorrida em Natal, Recife e Rio de Janeiro, foi um movimento estritamente comunista, planejado e executado pelo Comitê Central do Partido Comunista do Brasil-PCB.
O professor Homero disse que a Internacional Comunista, sediada em Moscou, mandou para o Brasil, clandestinamente, Luiz Carlos Prestes e a sua mulher Olga Benário, Artur Ewert (Harry Berger) um ex-deputado comunista alemão, Rodolfo Ghioldi, secretário Geral do Partido Comunista Argentino, todos “figuras importantes da Internacional Comunista”.
“A insurreição de 35 foi uma decisão do Partido e não da Aliança Nacional Libertadora. Paulo Gruber era elemento infiltrado pela polícia. A ANL foi uma frente do PCB para a insurreição militar. Em Natal, toda a junta governativa era do Partido Comunista. Era uma junta comunista e não uma junta aliancista. Houve planejamento bem elaborado para a insurreição e o CC do PCB foi quem autorizou o levante”, garantiu Homero Costa, que está preparando uma tese de mestrado sobre a Revolução de 35.( Ler “carta do professor Homero Costa em notas da reportagem “Na praia do meio se tramou a revolta”.


A DEPUTADA MARIA DO CÉU DISCURSOU NA ASSEMBLÉIA SAUDANDO O FRACASSO DA REVOLTA COMUNISTA


Na décima página, a edição de “A República”, de 1º de dezembro de 1935 (n.º 1.468), publicou um pequeno artigo de autoria da deputada estadual Maria do Céu Pereira Fernandes, do Partido Popular, a agremiação dos políticos conservadores e carcomidos do Rio Grande do Norte. Cinco dias depois do fracasso da revolução comunista de 1935, o órgão noticioso oficial não publicava uma linha sobre a existência de qualquer herói, civil ou militar.
A transcrição do artigo foi feita pela nossa auxiliar Maria Igacir Ribeiro da Silva. A sua publicação nesta série de reportagens sobre o comunismo no RN deve-se ao fato de não existir nenhuma referência aos debates ocorridos na Assembléia Constituinte Estadual, depois da intentona, nos livros e trabalhos publicados após 1937. “O Hosanna da Victoria”, de Maria do Céu, é transcrito aqui com a ortografia da época, (Maria do Céu foi a primeira mulher deputada no Brasil. É mãe do ex-deputado Paulo de Tarso Fernandes, ex-presidente do Diretório Estadual do PMDB-RN).

“O HOSSANNA DA VICTORIA“

Não seria por certo, lícito a quem nada tem com que pagar a ousadia de pedir. E eu que nada possuo para ressarcir a generosidade com que sempre me acolhe a gente boa e magnânima da minha grande terra, ouso ainda pedir que consinta em que, vez por outra, desdobre as páginas do nosso órgão oficial.
Louvável e merecedora dos nossos melhores aplausos é a iniciativa do muito digno diretor de “A República” dando-lhe domingueiras roupagens no dia consagrado ao Senhor. À página literária feita semanalmente hão de todos a correr porque nossa gente é sedenta do que é bom e são, é ávida do que é bello. Hoje que, louvado seja Deus, já sentimos brilhar sobre nossas cabeças a luz de uma abóbada sem nuvens, onde rutilam o direito e a justiça, sob cuja iluminura de debuxa o vulto da paz, é justo, é imprescindível que “A República” se dê cores diversas, tintas outras que não só as que de que se revestem os decretos e actos officiaes.
Tudo o que hoje nos punge relembrar já passou. O mal sempre flue para o seu ponto de partida. A procella, os ciclones, as trombas que devastam, que danificam, que destroem, não tem durações de eternidades. O oceano é que não passou, o bem é o que não morre, a verdade é que jamais sucumbe aos embates dos vendavais furibundos da anarchia e do crime. Passada a tormenta ella assoma, inalterável como sempre viveu, com serenidade de bonança para gáudio da virtude, e para vergonha do vício.
“O Rio Grande do Norte que teve em cinco anos o seu longo calvário, a sua dolorosa peregrinação por ínvios caminhos com o cruento holocauto de uns pela liberdade collectiva, ouve agora, cantada por todos os corações, a epopeia inenarrável”, do seu civismo, vê agora enaltecido pela gente deste grande Brasil o seu heroísmo que não tem confronto, assiste agora glorificada a sua ressurreição no Thabor de Luz que seus filhos lhe prepararam, e que há de iluminar imensidade a dentro e os tempos para orgulho das gentes que hão de vir.
Tudo hoje se alegra, tudo rejuvenesce, tudo entoa o Hosanna Magnífico da grande victoria. Maria do Céu. Essa foi saudação de Maria do Céu Pereira Fernandes à vitória sobre o comunismo”.



NOTA:


1-     Carta de Miguel Costa, de 05/08/35,(general da Coluna Prestes de 1926) ao Cavaleiro da Esperança, publicada no volume 1930/1935, da coletânea “Nosso Século”, edição da Abril, pág. 119:

“Estou hoje convencido de que realmente não há possibilidade de um meio termo no acerto de contas entre explorados e exploradores. Mas, se na luta em favor dos explorados os fins justificam os meios, parece-me que tem havido erros na luta, escolha e na aplicação desses meios. A ANL foi lançada no momento preciso. O seu programa anti-imperialista, pela libertação nacional do Brasil, antifascista e pela divisão dos latifúndios, realmente empolgou, não apenas as massas trabalhadoras, mas até a pequena-burguesia e mais fundamente os meios intelectuais honestos. Defendendo-se da ilegalidade em que seria fatalmente posta pela Lei de Segurança Nacional, a ANL propôs-se a resolver aquelas questões dentro da ordem. Fez a sua profissão de fé nacionalista e por último negou qualquer ligação mais estreita com o Partido Comunista. Nessa sua primeira fase, a ANL estancou desde logo o surto integralista no país. Veio o 5 de Julho. Você naturalmente pouco ou mal informado, supondo que o movimento da ANL tivesse tanto de profundidade como de extensão, lançou o seu manifesto dando a sua palavra de ordem de “Todo Poder à Aliança Nacional Libertadora”, brado profundamente revolucionário, subversivo, aconselhável aos momentos que devem preceder a ação.  Grito que deveria, para estar certo, ser respondido pela insurreição. No entanto, aí estão os fatos: veio o seu manifesto, veio o decreto de fechamento da ANL e este movimento popular, que parecia à primeira vista ter tomado todo o país, não reagiu nem com duas greves organizadas. O golpe reacionário do Governo, amparando-se nos termos de seu manifesto, pode ser desferido antes da hora que nos convinha. Não foi possível revidá-lo. Mas, se você tivesse, em vez de pregar o assalto ao poder, recomendado a mais viva consagração em torno da Aliança, não se teriam precipitado os acontecimentos”.


O FIM DA REVOLUÇÃO PARECEU CARNAVAL


Por sugestão do advogado Bianor Medeiros, o hoteleiro José Pacheco, 68 anos, proprietário do Hotel Tirol, testemunha dos acontecimentos de novembro de 1935, na região Seridó do Estado, prestou depoimento a “O POTI” sobre a participação do então padre Walfredo Gurgel, que mais tarde viria a ser governador do Rio Grande do Norte, com o apoio decisivo de Aluízio Alves, na chamada Batalha de Itararé, o famoso tiroteio da Serra do Doutor, no município de Campo Redondo-RN.
Pacheco também participou do tiroteio ocorrido na cidade de Panelas, hoje Bom Jesus, a 60 quilômetros de Natal, um dia antes da refrega na Serra do Doutor. Ele confirma o que Seráfico Batista, ex-prefeito de Santana do Seridó, disse a O POTI sobre a fuga em massa dos combatentes sertanejos, após o tiroteio com os revolucionários de 35, em Panelas.
Dinarte Mariz e Enoque Garcia, cada um com uma metralhadora de mão, chegaram em Santa Cruz e passaram a fazer discursos, conclamando o povo a pegar em armas para defender a sociedade contra o comunismo. Enoque era quem falava mais, pois Dinarte ainda não era político, mas foi grande aliciador de sertanejos para os combates de Panelas e Serra do Doutor. Os caminhões deles, do Dr. Flávio Mafra e Theodorico Bezerra foram usados para transportar os sertanejos. Descemos para Panelas e, no meio do trajeto encontramos uma Limousine, que os revoltosos tomaram do doutor Osvaldo Medeiros, com uma bandeira do Brasil cobrindo o capuz e dirigida pelo Sargento Wanderley, do Exército.  “Vim me entregar”, disse Wanderley, que entregou as suas armas e as que eram conduzidas por dois soldados, que lhes faziam companhia. Eu peguei um mosquetão e um bornal cheio de balas, me enchendo de entusiasmo para a luta. Quando começou o tiroteio em Panelas, eu estava detrás da igreja da cidade, sem disparar um tiro sequer, quando eu vi o carro fugindo. Ai resolvi fugir também, mas um comando de Dinarte Mariz parou a Limousine e mandou que a gente fugisse num caminhão, que estava cheio de carne de charque, rapadura, queijo e carne de sol, os alimentos das nossas tropas. Essa comida farta foi providenciada por Dinarte, que não participou dos tiroteios, mas foi peça importante porque atuou como um verdadeiro general. Descarregamos o caminhão, a cinco quilômetros de Panelas, e fugimos para Santa Cruz,, onde fomos dormir. Lá, estavam dizendo “tá todo mundo fugindo de Panelas”, disse José Pacheco, acrescentando, ainda, que cerca de 30 camisas-verdes, liderados por Walfredo Gurgel, participaram dos preparativos e da luta na Serra do Doutor, cujo número de mortes não soube precisar.
Bianor Medeiros, que foi integralista, afirma “qual a criança que ouvindo falar em Deus, Pátria e Família não se entusiasmava? A criança não via política (não sabia sequer o que seria) e sim via as figuras de envergadura e altura de Seabra Fagundes, Otto Guerra, Felipe Neri, Ewerton Cortez, Câmara Cascudo, Walfredo Gurgel, Mário Negócio, José Augusto Rodrigues, Manuel Genésio, Carlos Gondim,  Luiz Veiga, os Lúcio e Bilé, do Acari, todos sem exceção, eram bons oradores e comunicadores de massa”. (Retificação: em 1935, Clóvis T. Sarinho não era integralista. Sua entrada na Ação Integralista Brasileira/RN ocorreu em 1937).





“É COMUNISMO, MENINO!”


O escritor Otacílio Cardoso prestou depoimento sobre a revolução de 35 em Natal. Na íntegra, eis o seu relato que propiciou a manchete desta reportagem sobre o comunismo no RN.
“Quando da chamada intentona comunista de novembro de 1935 andava aqui o degas nos seus fagueiros 16 anos. Dezesseis anos daquele tempo, no que tange conhecimentos e esperteza, correspondem a uns 12 de hoje - e olhe lá!
Residia eu então na casa pastoral da Igreja Presbiteriana - uma pequena construção imprensada entre a Igreja e a prefeitura. Morava em companhia de duas irmãs mais velhas, das quais uma sobrevive. E foi esta justamente, que se encontrava em casa, naquela memorável noite. A outra logo depois da ceia, se deslocara até a casa de minha tia Ana, na Praça André de Albuquerque, 578 (onde é hoje uma lanchonete) a fim de saber como ia passando o nosso tio Gedeão, acometido por um derrame alguns dias antes.
Naquele tempo eu tinha uma paixão avassaladora pelo romance policial, devorava um atrás do outro, volumes de Conan Coyle, Agata Christie, Edgar Wallace, S.S. Van Dine... Justamente naquele dia (não havia ainda aqui a semana inglesa), eu adquirira no sebo do João Nicodemos, uma novela de Edgar Wallace, e tão logo terminei o café, “agarrei” a ler. Ao acender um “Yolanda” verifiquei, com desagrado, que apenas dois outros me restavam no maço. Iria um pouco mais renovar o estoque no Bar Teutônia, um café que existia então defronte da Prefeitura, bem pertinho, portanto. Mas a leitura era de tal modo absorvente, que eu ia passando de um capítulo a outro, e deixando o cigarro pra depois.
Seriam aproximadamente 7h - talvez um pouco mais - quando minha irmã chamou-me a atenção para um alarido qualquer ao lado do quartel do 21 BC, que era ali onde é hoje o Colégio Churchill. Só então emergi do “fog” londrino. Tão absorvido estava na trama do romance que não ouvira absolutamente nada...
Vou dar uma olhada - disse minha irmã dirigindo-se para o oitão da Igreja. Havia, nos fundos, uma saída para a Praça João Tibúrcio.
Aí começou o tiroteio. Minha irmã tornou às pressas e por pouco não corta a garganta num arame de estender roupa. Primeira vítima da rebordosa apenas um arranhão que a tintura de iodo logo sarou.
O tiroteio era cerrado, as balas por vezes ricocheteavam nos postes, sibilavam... Que diabo disto seria aquilo? Eu não sabia nem imaginava  o que pudesse ser. Depois da posse do Dr. Rafael Fernandes, menos de um mês antes, tudo parecia tão calmo...
Fechada a casa, ficamos, minha irmã e eu, a ouvir os disparos. Um tanto apreensivos, evidentemente. E ouvimo-los pela noite a dentro, pois a verdade é que, não só ruído dos disparos como a tensão nervosa não permitiam que nos entregássemos ao sono. Dei logo conta dos dois cigarros - e me arrependi pra burro. Sabe lá o que seria para um fumante passar uma noite sem pescar uma simples traíra, a escutar tiros e mais tiros, sem ter um cigarro para abrandar a tensão?
Ao amanhecer do domingo o tiroteio já não tinha a mesma intensidade, era, ao contrário, esparsos, pelo menos aqueles disparados nas proximidades. Mas lá pros lados da Praça André, a coisa continuava.
Ansioso por saber o que se passava, enchi-me de coragem, abri a porta e fui até o portão. Nessa ocasião vi, subindo a pé a rua Junqueira Aires, uma pessoa minha conhecida: era o dentista João Abdon, cujo gabinete dentário ficava no mesmo prédio da “A Razão”, jornal do qual fora eu tipógrafo até recentemente.
Que é que está havendo doutor?
Sem querer preguei-lhe um susto, decerto ignorava que eu morasse ali.
É comunismo, menino. E o melhor que você faz é ir para dentro!
Transmiti a irmã a informação. E passamos a cogitar sobre o que deveríamos fazer, pois, na época, “comíamos de marmita”, como se diz, e a casa, além de uns poucos pães e de algumas frutas não dispunha de mais nada no que tange a alimentos. A solução era irmos para a casa do tio Gedeão. Mas... e as balas? Não havia, contudo, outra saída, tínhamos que ir para a casa dos tios.
Ao tentarmos fazê-lo, porém deparamos com um obstáculo. Dois jovens soldados (ou pelo menos com a farda do exército), cada qual com um fuzil, estavam postados - um na esquina da Prefeitura, outro na do Atheneu (O Atheneu era onde ficam atualmente os fundos da Secretaria de Finanças do Município). Achavam os rapazes que não era aconselhável sairmos, e muito menos naquela direção.
Ali é que o fumo tá forte... disse um deles.
Minha irmã argumentou, expondo-lhes a nossa situação. Mostraram-se compreensivos. Procuraram até orientar-nos no trajeto.
Vão indo aí por essa rua da farmácia, “se cosendo” na parede...
A ‘Farmácia Maia’ antiga “Torres” era na esquina onde existe hoje a “Paraguassu Festas”.
Aproveitei para perguntar:
O que é que estar havendo mesmo?
Sei  não... Estamos apenas cumprindo ordens.
Saímos, seguindo os conselhos do jovem. É sempre bom seguir os conselhos dados por quem tem um pau-de-fogo na mão.
A fuzilaria continuava. Às vezes abrandava um pouco, para recrudescer em seguida. Pelo menos, de munição, parecia haver bom estoque.
Felizmente fomos encontrar tudo em ordem na casa dos tios. Meus três primos, rapazes, estavam em casa quando começara a inana, e lá permaneceram, está visto. Conheci nesta ocasião um rapaz que se tornaria posteriormente meu amigo - Lídio Madureira -, que fora surpreendido pelo tiroteio quando, vindo do Baldo, se dirigia para casa na Gonçalves Dias. Mostrava-se excessivamente nervoso, preocupado com a mãe, dona Nhazinha. Aliás, todos se mostravam naturalmente preocupados e perplexos, e também apreensivos com o que corria lá fora, que ninguém - nós, pelos menos - sabia ao certo o que diabo fosse. (O Dr. Abdon falara em comunismo, mas o número de comunista em Natal daria para fazer uma revolução? Mesmo com a nossa inexperiência achávamos impossível isso).  O meu tio, numa preguiçosa, olhava para um e para outro sem conseguir articular uma palavra, coitado. Uma preocupação, pelo menos fora afastada: havia em casa o bastante para as refeições do dia. “Aquilo” não ia durar muito, não era possível. Logo mais cessaria e tudo entraria nos eixos. Era o que pensávamos.
Umas 3 casas depois da 578 ficava a de seu Chico Teófilo, que alguns chamavam a “casa dos 3 anões” (tinha ele 3 filhos anões: Ester, Oscar e Lulu). A casa ficava na esquina da rua João da Mata, onde é hoje uma farmácia. Na calçada, um tanto elevado na extremidade fora postada uma metralhadora.  (Ouvi dizer que se tratava duma “metralhadora pesada”, não sei; graças a Deus nunca tive necessidade de entender dessas coisas). A tal metralhadora, apontada para o quartel da Polícia funcionava com eficiência, de quando em quando ouvíamo-lhe o ta-ra-ta-ta duma rajada. (Contam que, a certa altura a um recrudescimento do tiroteio, o Oscar aconselhara ao irmão: - Mano, te abaixa! Ao que Lulu, do alto dos seus setenta e pouco centímetros, retrucara: - Besteira, Oscar. Eu já sou baixo por natureza...!
O certo é que as horas iam se escoando – horas de apreensões para quem não tinha a menor idéia do que significava aquele entrevero.  Chegou a  hora do almoço, e por  pouca  que tivesse sido a comida,  teria dado de sobra.  Quem,  naquela situação, teria disposição para encher o bandulho?  Nós,  homens,  vingavamo-nos no cigarro.  (Meus primos costumavam comprar cigarros em pacotes – cigarros “ Lulu  n.º 2”, produção local da Fábrica Vigilante).
Aí por volta das duas horas da tarde, talvez um pouco antes, o fogo cessou.  E cessou mesmo por completo.  Um dos primos, chegando à janela, soube por um soldado que viera pedir um pouco d´água, que a Polícia acabava de render-se.
Uma meia hora depois assisti à passagem, pela nossa porta, provavelmente em direção ao quartel do 21, dos integrantes da PM, que haviam resistido até há pouco.  Nunca esqueci o espetáculo.  Impressionante.  Parecia cena de um filme.  Um reduzido grupo de homens cabisbaixo, suados, abatidos dentro das fardas sujas, os rostos macilentos mostrando  sinais evidentes  de cansaço ( Identifiquei, entre eles, alguns componentes da banda de música, que eu conhecera dois anos atrás, quando residira nas proximidades do quartel ).  Deveriam estar mesmo exaustos, pois haviam passado a noite inteira e toda a manhã manobrando os seus fuzis, sustentando fogo ininterrupto.  E agora ali iam, escoltados, naturalmente cheios de apreensão quanto ao que lhes poderia estar reservado.  E deveriam estar, além do mais, famintos.  No intimo fiz votos para que nada de mal lhes acontecesse.  E creio que não passaram por maiores vexames, apenas ficaram detidos por 2 ou 3 dias.
Cessado o fogo, as ruas foram voltando devagarinho a ter a presença  de pessoas,  não tantas como de costume, está visto.  Bom,  tem gente que é exagerada em tudo, até no medo.
Em companhia de dois dos primos, saí para uma voltinha e naturalmente a procura de notícias.  Pouca gente nas ruas, evidentemente, mas o bastante para que o jornal “Bocório” fosse dando suas edições extras...  Que o movimento estava triunfante, apenas em Santa Catarina e Paraná os inimigos do povo ainda estrebuchavam... Que o Cavaleiro da Esperança assumira o poder... (As   “manchetes” eram desse tipo ).  A certa altura escutamos um alarido, era um grupo de rapazes a pular, gritando que haviam tomado Panelas... (alguns deles, por gaiatice, traziam na extremidade de uma vara, uma panela de barro...) parecia mais uma troça carnavalesca.  No dia em que o brasileiro levar alguma coisa a sério o mundo se acaba.
Na segunda-feira, pela manhã, fui a imprensa oficial, onde a poucos dias começara a trabalhar.  Ali encontrei a maior parte dos colegas, mas nenhum sabia mais do que o outro.  Ninguém queria se comprometer dando com a língua nos dentes.
Dizem que tiraram um jornal...  – disse, já não me lembro quem. (Tirar queria dizer fazer, imprimir).
Pouco depois recebemos ordem para ir embora, até que a situação se normalizasse.  Claro que ninguém esperou que a ordem fosse repetida.
A propósito do jornal, “A Liberdade”,  foi o mesmo composto e impresso nas oficinas de “A República”, e não na “A Ordem”, como já chegou a ser dito.
(Meses depois, descobri em cima de um armário, na Seção de Avulsos onde trabalhava, uns trezentos ou mais exemplares da “Liberdade”.  Procurei obter um, mas o chefe negou.  Um dia, aproveitando a ausência do chefe, surrupiei um exemplar.  Depois me arrependi.  Mas me arrependi foi de não ter surrupiado uns dez...).
Agora já não tenho certeza se foi nesse dia ou no imediato, terça, que fomos ao Hospital Juvino Barreto visitar um conhecido nosso – Joaquim Barbosa – soldado da Polícia, que fora ferido no assédio ao quartel.  O ferimento, felizmente, não era grave, o Joaquim ficou apenas com um braço ligeiramente defeituoso e foi reformado  como cabo.  Mais tarde foi trabalhar na B. Naval, de onde já deve ter-se aposentado.
Quando deixávamos o Hospital, vinham trazendo numa padiola um rapaz, vítima de peixeirada lá pras bandas da Redinha.  Conhecia-o de vista era filho do alfaiate Joca Lira.  Integralista ardoroso, imprudentemente entrara a discutir com um adepto da revolução, que o ferira mortalmente.  Outro que morreu entre o sábado e o domingo, atingido propositadamente por arma de fogo, foi o agente da Costeira, Otacílio Werneck.  Morava numa casa nas proximidades da igreja do Bom Jesus.  Chegara ao portão, para saber o que estava ocorrendo, quando o alvejaram.  Conheci esse meu xará – como ao outro – apenas de vista.  De civis mortos, só me recordo destes.
Parece-me que foi também na segunda-feira que os bondes da Força e Luz passaram a cobrar pela metade o preço das passagens, ou seja, um tostão (100 réis).  É que houve, na calçada do quartel do 21, distribuição de gêneros ( feijão, charque e farinha ) aos pobres.
Quanto aos exemplares de “Liberdade” de que já falei, não sei que destino lhes deram, creio que foram destruídos.
...E eis aí, meu caro Cortez, o meu modesto depoimento.  Espremendo não dá quase nada – mas eu lhe avisei que tinha muito pouco para contar.
Uns sete anos depois, em Aracaju fui apresentado a um cidadão.
- Ah, o senhor é da terra do comunismo, hein?
Tentei esclarecer que Natal não era propriamente terra do comunismo, que houvera uma revolução de caráter comunista, é certo, mas engrossada pelos adversários do governo recém-empossado – e coisa e tal.
Não venha me dizer que aquilo ali não é um ninho de comunistas.  Se chegaram até a fazer passeata de freiras nuas... foi ou não foi?
Desmenti a balela.  O homem insistia:
Mas se eu li nos jornais!
Resolvi sair pela tangente da ironia misturada com a galhofa:
Bem parece que cogitaram disso, mas o número de freiras lá era muito reduzido, e como não fosse possível mandar buscar as de Aracaju, desistiram da idéia.
O olhar que o sujeito botou pra mim era como se dissesse:
Vá ver que você é um “deles”...
A revolução praticamente terminou na quarta-feira, à semelhança do carnaval.  Foi quando apareceu, sobrevoando a cidade, um avião se não me engano da Marinha.  ( O M. da Aeronáutica seria criado 5 anos mais tarde).  Aí houve a debandada, o salve-se quem puder.
Depois, foi a repressão.  E aí surgiram as delações, as denúncias abjetas, asquerosas.  Alguns, moralmente, se engrandeceram.  Outros, ao contrário, se apequenaram no afã deletério e torpe de destruir desafetos ou simples adversários políticos.  Mas isso já são outros quinhentos.
N. A.: Otacílio Cardoso faleceu em dezembro de 1999.


quarta-feira, 21 de novembro de 2012


1935: PRESOS FUZILADOS EM CURRAIS NOVOS/RN

A CHACINA DE CURRAIS NOVOS

Em 1935, comunistas e presos
De justiça foram fuzilados.

Luiz Gonzaga Cortez Gomes.

No dia 23 de novembro de 2006, a revolta comunista de 1935 fará 71 anos. (1). Dos que pegaram em armas ou não, mas que participaram da insureição, só resta vivo o ex-gráfico Francisco Meneleu dos Santos, natural de Areia Branca/RN e residente em Fortaleza/CE. Nos últimos 5 anos, Meneleu veio a Natal várias vezes e aqui recebeu homenagens dos membros do PC do B. Mas deixemos isso de lado e vamos relembrar a misteriosa, esquecida e famigerada Chacina de Currais Novos. Você, caro leitor, já ouviu falar nesse massacre? Pois saiba que tem gente viva que viu a chacina na Serra da Dorna, perto de Barra Verde e do Saco do Veado, município de Currais Novos, segundo informa Volney Liberato, pesquisador daquela cidade seridoense, onde os integralistas, agricultores e fazendeiros, comandados por sargentos da Polícia Militar, destacados em Parelhas, Carnaúba dos Dantos, Acary e outras cidades, enfrentaram e derrotaram os revoltosos de novembro de 1935, na Serra do Doutor, município de Santa Cruz. Os elementos civis que se destacaram no combate, conhecido por “Fogo da Serra do Doutor” foram os integralistas de Carnaúba dos Dantas, os irmãos Lúcio, Felinto (este ficou famoso, décadas depois, como compositor de hinos sacros e dobrados), Manoel Lúcio e Joel) e os fogueteiros que fabricaram as bombas caseiras lançadas nos veículos do Exército que transportavam os militares que se destinavam a cidade de Caicó com o fito de implantar o poder revolucionário do Partido Comunista e da Aliança Nacional Libertadora. Dinarte Mariz, que não pisou na serra, foi para Campina Grande buscar armas e munições. Depois da emboscada feita pelos policiais militares e os integralistas, Dinarte apareceu por lá, em direção à Natal.
Quem primeiro abordou esse assunto foi o falecido escritor João Maria Furtado (Vertentes, p. 139, Livraria Olímpica Editora Ltda, Rio, 1976), ao transcrever parte de depoimento prestado por José Bezerra de Araújo, político UDN, ligado a Dinarte Mariz, sobre os acontecimentos na Serra do Doutor e Currais Novos. Dr. José Bezerra de Araújo disse a João Maria Furtado que após a derrota dos comunistas, “elementos do Partido Popular tiraram da cadeia de Currais Novos presos de justiça que lá se achavam e e os que eram adversários políticos foram sumariamente fuzilados, depois de conduzidos a lugar ermo, fora da cidade”. O Partido Popular era liderado por José Augusto Bezerra de Medeiros e Rafael Fernandes Gurjão, este o governador destituído pelos comunistas em 23 de novembro de 1935.
Mas agora, mais de 20 anos depois que publiquei reportagens sobre “O Comunismo e as lutas políticas do RN na década de 30”, em O POTI, um pesquisador de Currais Novos, Volney Liberato, após ler uma matéria minha sobre o ex-marinheiro Jaime de Souza Bastos, 88 anos, que mora em Igapó, Natal, disse que as informações publicadas conferem com algumas informações que ele tem. “Os mais antigos comentam, sem ódio e sem paixões, que quando retiraram os presos da antiga cadeia da rua do Rosário (hoje Vivaldo Pereira), pelos integrantes do Partido Popular, quem era adversário, mesmo sem ser comunista, foram dali retirados e executados sumariamente em local ermo do município, sendo depois seus corpos jogados na Serra da Dorna. Existe também outra versão que foi dada pelo soldado reformado João Rodrigues, hoje com 92 anos de idade, de que, logo após os acontecimentos da Serra do Doutor, poderosos da cidade se dirigiram até a cadeia, onde lá mandaram soltar todos os presos, ordenando que fossem embora, que fugissem. Muitos deles ganharam o caminho de Frei Martinho/PB, mas antes de chegarem Rio da Boa Vista, foram emboscados por cabras contratados por esses poderosos, e sumariamente executados. Dois deles ainda chegaram com vida à cidade, mas um deles finou-se na calçada do cemitério de Santana, sob as esporas de um desses poderosos, enquanto o outro era jogado por cima da parede, da calçada para o interior do cemitério, pelos cabras contratados, vindo a falecer da queda.
O pai de um desses que assim foi executado terminou por ir embora de Currais Novos, pois começou a sofrer discriminação e reserva por parte do “coronelato” local. O pai do outro, se não me engano, enlouqueceu, terminando seus dias em Natal/RN. Como os fatos históricos, principalmente os que se referem aos acontecimentos de 1935, principalmente aqui em Currais Novos, ainda não são muito velados, pois os nomes dessas duas vítimas do sistema repressor do PP, não nos foi fornecido, nem os nomes dos seus pais, pois os mais velhos ainda temem em declinar nomes, como se ainda estivéssemos em plena ditadura do estado novo ou na redentora de 64”, assegurou o pesquisador Volney Liberato.

Luiz Gonzaga Cortez Gomes é jornalista e pesquisador.
Sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.
Notas: este artigo foi escrito em 2006. O sr. Meneleu é falecido.

Metralhadora dos revoltosos de 1935 em Natal.

 Esta foi a metralhadora usada pelos militares do único quartel do Exército em Natal, o 21º Batalhão de Caçadores, que ocupava toda a área compreendida, hoje, entre as ruas Junqueira Ayres e Rio Branco, na Cidade Alta, onde estão a àrea da adminsitração do SESC e o Colégio Estadual WC.
A foto registra treinamento no local chamado hoje de Capim Macio (àrea verde de preservação ambiental).
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segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A Revolta Comunista de 35 em Natal (II)


Nesta 2ª parte, você lerá matérias sobre o tiroteio na Serra do Doutor, a chacina dos revoltosos presos na Delegacia de Currais Novos, a omissão da Igreja Católica, a destituição do prefeito de Santo Antonio, no agreste do RN e outros tópicos da revolta comunista de 1935.

Retrato falado do suposto soldado Luiz Gonzaga, vulgo Doidinho, feito em 1992, com base nas informações do sr. André Batista, natural de Sacramento, hoje município Ipanguassu/RN, que o conheceu pessoalmente e disse que ele deficiente mental. Outra fonte foi o desembargador João Maria Furtado, autor de Vertentes, que escreveu  sobre vários episódios da revolta de 35 no Rio Grande do Norte.


DIAS: IGREJA NÃO COMBATEU O LEVANTE


Nesta reportagem sobre o comunismo no RN, publicamos a segunda parte das transcrições dos documentos dos chefes do PCB, apreendidas pela Polícia do então Distrito Federal (RJ) sobre a revolução de novembro de 1935 (Documentos G-C, p. 70 excertos da publicação “Arquivos da Delegacia Especial de Segurança Política e Social. Volume III - Polícia Civil do Distrito Federal - Rio” - 1938 - Cópias xerografadas do Arquivo Particular de João Alfredo Lima. O comunista Santa, conta mais detalhes sobre os últimos dias da rebelião de novembro de 35, em Natal, inclusive sobre a prisão dos auxiliares do governador Rafael Fernandes num navio mexicano.  Na segunda parte da entrevista de Giocondo Dias, ele revelou os nomes de quase todos os membros da Junta Governativa de 35, mas afirmou não se lembrar do nome do sapateiro José Praxedes. Será que Praxedes, nos 49 anos de clandestinidade permaneceu ligado ao pessoal do PC do B? Teria sido esse o motivo do “esquecimento” de Giocondo? Não sabemos.


A VERSÃO DO CHEFE DO PCB SOBRE AS CAUSAS DA REVOLUÇÃO DE NOVEMBRO DE 35, EM NATAL (II)


Na entrevista que concedeu em 1981, aos três jornalistas de São Paulo, o secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro, Giocondo Gerbasi Alves Dias, um dos líderes da revolução de novembro de 1935, em Natal, disse que servia em Manaus quando recebeu o primeiro convite para participar de uma conspiração que visava a instalação de uma ditadura militar - “para acabar com a corrupção” -, que seria estabelecida por descontentes com a Revolução de 30.
Na verdade, a gente não tinha a mínima noção do que significaria uma ditadura militar. Quando surge a ANL, fomos convocados para uma reunião na casa de um companheiro chamado Euclides, que era primeiro-sargento. Naquela ocasião, o capitão Otacílio de Lima fez uma exposição sobre a Aliança Nacional Libertadora. Quando ficaram sabendo das ligações com os comunistas, todos pularam fora, menos eu. Eu disse na hora que era comunista e que estava de acordo com a coisa.

- E de onde é que você tirou isso?

Giocondo - Quando eu trabalhava, conheci um cidadão que vinha do Rio de Janeiro, que tinha ido à Bahia para tratar-se de uma tuberculose: Aluízio Campos. Esse homem era do partido e foi candidato a deputado federal, na Bahia, pelo Bloco Operário e Camponês. Foi dele que recebi as primeiras noções - bem vagas, aliás - sobre o comunismo. Ele defendia a criação das Repúblicas Socialistas da América do Sul, com a capital em La Paz. Se havia a URSS, com a capital em Moscou, no nosso caso a capital deveria ser em La Paz, o centro da América, o coração do continente - era a loucura total. Este camarada conversava muito comigo. Por outro lado, nessa época, o partido imprimia um jornal diário. A Nação.

- Um jornal do Rio, do Leonidas Rezende.

Giocondo - Sim. Este jornal vinha pelos navios Ita e pelo Lóide, chegava com um ou dois dias de atraso. O Aluízio Campos, que o recebia, me dava o jornal - trabalhávamos no mesmo escritório - para vender - o que eu ganhasse, ficava para mim. Só que ninguém queria comprar o jornal, aliás não o queriam nem de graça, de puro medo... De qualquer modo, a coisa foi ficando na minha cabeça. Aluízio conversava comigo, eu ia aos comícios dele. Eram comícios pequenos, no máximo quinze pessoas ouvindo a sua vozinha fraca. Foi com ele que fui ao primeiro sindicato da minha vida, o dos padeiros. Não tinha nem móveis... Os sindicatos desta época não recolhiam o imposto sindical. Eu já me julgava comunista e, naturalmente, fui um dos entusiastas da revolução da Aliança Liberal. Quando surgiu depois, um cidadão dizendo que a ANL era contra o imperialismo, contra o pagamento da dívida externa, pela distribuição das terras...

- Você embarcou logo...

Giocondo - Eu achei formidável. Aí começamos o trabalho de recrutamento do pessoal, dos cabos e sargentos para o movimento da ANL. Nesta época, entrei formalmente no partido: deram-me uma ficha, eu assinei. Para vocês verem como era a coisa, nós recrutamos todos os cabos do batalhão, menos dois, um porque era ex-integralista e o outro porque era o cabo do racho...

- O que significava ser o cabo do rancho?

Giocondo - O cabo responsável pela alimentação, que sempre é odiado por todo mundo, pois a alimentação era a pior possível. E toda a nossa agitação concentrava-se na denúncia das péssimas condições de alimentação...

- Partir das necessidades sentidas pelas massas...

Giocondo - Exatamente. Além disso, eu era admirado porque era branco, louro de olhos azuis e não tinha luxo. Eu fazia tudo o que os outros faziam. Para aqueles homens, em sua maioria vindos do campo, humilde, aquilo era algo extraordinário. Por outro lado, eu sabia ler e escrever.

- Isto não era comum entre os cabos?

Giocondo - O analfabetismo não era comum entre os cabos, mas grassava nos praças. Vocês podem imaginar o que era o analfabetismo no Brasil, naquela época.

- E então?

Giocondo - Naquele período foi organizado o partido no batalhão. Quem dirigia o trabalho era o Quintino Clementino de Barros, músico de primeira classe do Exército. Tinha 42 anos e era um intelectual, contador e velho conspirador. Era o único que tinha contato com a direção do partido. O trabalho político - como já disse - foi concentrado nos quartéis e não podia dar outra coisa do que deu, na medida em que fazer trabalho político, agitar um quartel é bem diferente do que fazer o mesmo em uma fábrica.

- Os seus companheiros de Natal não estavam investindo no trabalho de massa?

Giocondo - Estavam, mas isso é muito relativo. Vocês têm de levar em conta que a indústria de Natal era constituída de uma fábrica de cigarros e uma de sabão. Logo, todas as esperanças dos civis voltavam-se para o quartel. A agitação ligada às reivindicações mais sentidas dos praças...

- Quais eram elas?

Giocondo - Melhor bóia, acesso dos cabos e sargentos ao oficialato, direito de voto para os praças, direito de permanecer, de reengajar...

- O que significava esta reivindicação?

Giocondo - O cabo, depois de cinco anos no exército, era obrigado a dar baixa, a massa voltava-se contra isso, principalmente porque o desemprego na época era grande. Então, a conspiração, a movimentação cresceu em tono destas  e de outras reivindicações.

- E na oficialidade, vocês não conseguiram adeptos?

Giocondo - Nós não tínhamos trabalho entre a oficialidade. Era orientação, e acredito que correta do ponto de vista conspirativo, esta linha de separar os praças da oficialidade. Só que, na hora do levante, nós prendemos todos os oficiais, inclusive os que eram da ANL.

- Vocês não sabiam quais eram?

Giocondo - Pelo menos a grande massa não sabia. Eu, por exemplo, sabia - havia um oficial da ANL que estava preso, mas de combinação com ele, preferimos que ficasse preso, para não dar na vista.

- Mudando de assunto, qual a sua opinião sobre a idéia de que o próprio Governo tenha colaborado para a precipitação do levante a 23 de novembro?

Giocondo -  Não creio. Acredito, como já disse, que a explosividade da situação era grande. Houve, então, uma tentativa de desmobilização, de desarmamento do batalhão, e daí...

- ... O batalhão levantou-se...

Giocondo - Nós reunimos com a direção da ANL e eles achavam que deveríamos levantar o batalhão às duas horas da tarde. Nós discordamos disto. Tinha de ser às sete horas. E, efetivamente, não foi necessário sequer um tiro para tomarmos o batalhão. Nós éramos de tal forma organizados que a coisa não levou mais de 20 minutos.
- Mas esta orientação da ANL era só em função do clima local ou tinha ligação com uma conspiração a nível nacional? Isto é importante para a análise do fenômeno. Veja bem: Natal levantou-se, depois foram Recife e Rio de Janeiro, entre os dias 23 e 27. Por que é que Natal sai na frente dos outros, sem uma coordenação nacional?

Giocondo - O Gregório Bezerra, no livro dele, aborda direito esta questão. Havia uma apreciação exagerada em relação às possibilidades do movimento. A concepção era a da fagulha que incendeia, que gera a chama, até hoje utilizada pelos agrupamentos de ultra-esquerda. Isto é: levantando-se um setor ou batalhão, todos os outros se levantariam. E também nos diziam que havia outros batalhões em situação bem melhor que o nosso, no que se referia ao levante. E não era verdade. Nós éramos, efetivamente, um dos poucos batalhões onde havia trabalho. O 22º Batalhão de Caçadores da Paraíba, por exemplo, foi imediatamente mobilizado contra nós e acabou por nos abafar.

- E as mortes, Giocondo?

Giocondo - Antes de tudo, o seguinte: no batalhão não houve resistência, nós o tomamos sem um tiro. Tínhamos organizado a coisa de modo a que as autoridades fossem presas no teatro da cidade. Estavam todos lá, em uma comemoração: o governador, comandante do batalhão, da polícia, todos. Depois que nós tomássemos o batalhão, sairia um agrupamento para tomar o quartel da polícia, onde nós já tínhamos apoio no cabo da guarda. Aí também não seria necessário dar um tiro sequer. Em seguida, este agrupamento iria para o teatro, liberando os presentes, com exceção das autoridades. Ocorre que houve vacilação no grupo que deveria realizar a tomada do teatro. Ai me disseram: por que é que você não vai tomar o teatro? E eu fui. No caminho houve um tiroteio, um dos recrutas que ia conosco atirou num soldado da polícia, na Delegacia da rua São Tomé. No tiroteio fui ferido, levei três tiros e tive que ir ao hospital. O restante dos camaradas foram alertados e fugiram do teatro.

- Está bem, mas o Quartel da Polícia?

Giocondo - Esperam aí... os oficiais que estavam no teatro foram ao quartel da Polícia e do Exército. O sargento Amaro, comandante do grupo que ia tomar o quartel, começou a atirar antes de chegar lá, o que não fazia parte das instruções. Pelo contrário, ele devia ter ido calmamente e ocupado, pois teria o apoio do cabo da guarda. Com o ocorrido, houve tempo para os oficiais no teatro - em número de 19 - fossem para o quartel da polícia e para que o Governador se refugiasse no Consulado Chileno, indo após para um navio de guerra mexicano que estava no porto. Estes dezenove oficiais, o comandante da Polícia e muitos oficiais do exército comandaram a resistência no Quartel da Polícia, durante dezenove horas. Isto não estava previsto nos nossos planos. E eu no hospital...

- E como você conseguiu sair de lá?

Giocondo - De manhã cedo, quando os médicos me examinaram e verificaram que os ferimentos não tinham gravidade que se pensava, cai fora do hospital. Vi que podia andar e fui para o quartel.

- Você se lembra o nome de alguns dos oficiais que resistiram, e que depois tinham prosseguido na carreira militar?

Giocondo - Depois eu falo sobre este assunto. Voltando à resistência no quartel, nós nos defrontemos com alguns problemas. Não tínhamos munição para os morteiros e muito pouca para as metralhadoras. Começamos a assediar o Quartel da Polícia. Mas ele estava numa espécie de “ângulo morto”: as balas das metralhadoras não atingiam o alvo.  Foi ai que eu discuti com o cabo Valverde - um dos homens mais valentes que eu conheci na minha vida, dois anos mais novo que eu -, e resolvemos cercar o quartel pelos fundos, pois tínhamos certeza que pela frente eles não poderiam fugir. A única possibilidade deles fugirem era pelos fundos, pelo esgoto que dava para o mar, para o mangue. Quando eles foram saindo, fomos prendendo. Daí esperamos: oficial de um lado, praça de outro. Estes últimos aderiram em massa ao movimento.

- E o que vocês fizeram com a oficialidade?

Giocondo - Levamos para o nosso quartel e prendemos no cassino dos oficiais. Nenhum dos que nós prendemos foi morto; aliás, nenhum oficial foi morto durante o movimento. Só soldados, alguns, dos dois lados, em combate. Este negócio de dizer que alguém morreu dormindo, isto é mentira. Por outra parte, nós éramos tão ingênuos que abordávamos a coisa apenas pelo lado humano. Os presos estavam apavorados e eu fui ao cassino falar com eles. O Chefe da Polícia, que estava preso, João Medeiros, veio a mim e disse: - “Estão ameaçando nossas vidas”. Respondi que todos eles estavam com a vida garantida, que seriam julgados por um Tribunal Popular, e quem não tivesse culpa no cartório não precisava se preocupar.

- Quando tempo durou essa “República Popular” que você ajudou a montar?

Giocondo - Três dias, de sábado à noite até terça-feira. A Junta Governativa era composta pelo Lauro Cortez Lago, diretor da Casa de Detenção, João Batista Galvão, advogado, José Macedo, tesoureiro dos Correios e por um sapateiro que não me recordo o nome, além do Quintino, que representava as Forças Armadas na Junta. Quintino era do partido.

- Que  medidas a Junta tomou durante os três dias?

Giocondo - Decretou a Reforma Agrária. Foi editado um jornal “A Liberdade”,  além de uma série de medidas que constavam no programa da ANL. Em relação à população, é preciso dizer o seguinte: não foi violado um único lar, não houve uma só prisão de civis. Houve o máximo respeito às liberdades democráticas.

- E a vida da cidade, como é que ficou?
Giocondo - Continuou normal. Na primeira noite, a massa foi para a praça pública, houve comícios. Depois a vida continuou normal, sendo que nós passamos a organizar o envio de colunas, por exemplo, no sentido do Ceará, para pegar os operários de Mossoró, Areia Branca, que era o maior núcleo operário do Rio Grande do Norte, os salineiros. Organizamos também uma outra, no sentido do interior do Rio Grande do Norte, além de uma terceira, para ajudar o pessoal de Pernambuco.

- Houve reação civil ao levante?

Giocondo - Não, não houve. Os representantes mais notórios da oligarquia sumiram do mapa.

- Mas vocês cercaram a cidade, fizeram barreiras para impedir a fuga dos usineiros?

Giocondo - Não, não houve nada disso... Nossa preocupação era avançar, pois sabíamos que Natal, sozinha, não resolveria o problema. Vejam bem a situação, queríamos mandar tropas para Pernambuco e não pudemos, pois o maquinista do trem sumira. Isto é exemplo da fraqueza de nossa organização.

- Conte algo sobre as reações dos vários setores da cidade...

Giocondo - Aconteceram coisas folclóricas. Um dia, por exemplo, estou lá no batalhão e me aparece um cidadão, grãn - finíssimo - chamavam-no de Visconde - que eu não conhecia.  Dispôs-se a ajudar na manutenção dos carros que havíamos requisitado na cidade. Ele disse que os veículos estavam mal cuidados, sem lubrificação, que dentro em pouco quebrariam. Logo descobri: os dois carros dele estavam lá... Aceitamos a ajuda do sujeito. Em outra ocasião apareceram fornecedores, de pão e outras coisas, dispostos a regularizar o fornecimento.  Como vocês vêem, a coisa estava legitimada.

- E em relação ao poder de decisão no quartel, como é que ficou?

Giocondo - Nós assumimos o controle. A maioria do batalhão era de recrutas, e da pior espécie: recrutas sorteados. O camarada vem do interior, a contragosto. A preocupação central dele é voltar, o mais cedo possível. Às vezes não sabe distinguir o pé direito do esquerdo. No momento em que fui ferido e abriu-se uma brecha, desertaram oitenta, logo na primeira noite. Minha mulher, já falecida, quando veio para a cidade, encontrou dois ou três soldados e perguntou o que é tinha havido; responderam que o batalhão tinha se levantado e eles estavam caindo fora. Ela perguntou por mim: “Ah, esse daí levou uns tiros”, ela passou-lhes uma descompostura...

- Ela estava sabendo do levante?

Giocondo - Que nada. Ainda teve o azar de perder a irmã na história.  Quando a coitada foi avisá-la da coisa, passou em frente ao quartel e levou um tiro na cabeça. Minha cunhada foi uma das vítimas de 35; uma menina de 16 anos de idade.

- E as violações de lares, expropriações?

Giocondo - Não houve, nem uma coisa nem outra. No caso do banco - todo governo tem poder sobre o tesouro - a Junta pediu ao gerente do Banco do Brasil a chave do cofre. Apesar dele não ter dado, eles abriram-no e retiraram uma quantia que, para a época, era grande. O Gregório Bezerra conta isto nas memórias dele: um dos erros principais foi ter distribuído este dinheiro para parte dos participantes. No momento em que o sujeito sentiu-se dono de uma parcela de dinheiro, já foi começando a pensar na vida. Foi realmente um grande equívoco.

- E as tentativas de difamação do movimento?

Giocondo - Difundiram que tínhamos deflorado as filhas dos fazendeiros, que estudavam na Escola Doméstica. Os próprios pais das moças trataram de desmentir, e rápido. A verdade é que ninguém tinha passado nem perto do local. Outra coisa: o único carro que nós não requisitamos foi o do bispo, dom Marcolino Dantas. Por sinal, ele não se prestou a servir na luta contra nós, apesar da reação ter insistido. O único que prendemos foi o chefe da polícia.

- E a Igreja?  Ela não tentou mobilizar-se contra o processo?

Giocondo - Não, que eu saiba não, apesar do bispo não ter nenhuma simpatia por nós. Depois da derrota ele deu, por outro lado, declarações anticomunistas: Sabem como é que é, na hora da baixa todo mundo põe a boca no trombone...

- Veja bem: Em jornais da época, lemos que, depois da retomada do poder na cidade, a Irmandade Do Sacramento já estaria coordenando uma marcha de agradecimento a Deus “pela derrota fragorosa do comunismo”. Reuniu-se o equivalente a um quilômetro de fiéis, com seus terços à mão, orando e praguejando contra o bolchevismo, sob o comando de Dom Marcolino Dantas. Ouviam-se tudo contado pela imprensa da época - “pesadas maldições contra os vermelhos”, com senhoras pedindo a forca para Luiz Carlos Prestes, implorando a Cristo que a “Rússia Soviética se transformasse em um montão de cinzas”. Exaltou-se, na passagem, “A coragem cívica do Governador do Papa, do clero em geral”. O que você diz sobre isto?(1)

Giocondo - Isto é natural que tenha acontecido, a partir da derrota  do movimento. Agora, o que eu tenho certeza é que não conseguiram arrancar do Bispo nenhuma declaração de que nós teríamos cometido arbitrariedades ou tentado coagi-lo. Diferente de outras pessoas, com as quais nem sequer havíamos tido contato, e que passaram a posar de vítimas, a alardear sofrimentos inexistentes...”(Final da 2ª. Parte).



NOTA:


1-     O professor Otto Guerra disse que não correram “maldições contra os vermelhos” ou “força para Luís Carlos Prestes”, na procissão realizada do bairro do Alecrim ao centro de Natal, após o fracasso da insurreição de Novembro de 1935. “Tudo mentira, pois participei da procissão e não vi nada disso”. (Otto Guerra, entrevista, Natal, 13.02.87).
Giocondo omitiu a reação dos seridoenses na Serra do Doutor, no município de Currais Novos, hoje encravado em Campo Redondo.



“SANTA” DENUNCIA QUINTINO

Trechos do Documento 6-C:
“Tivemos dois aviões à nossa disposição um deles fez vôo de reconhecimento aos inimigos e distribuição de manifestos, eles fizeram o vôo com 3 operários armados. Resolvemos um caso de uma tripulação marítima, intimamos o comandante de um navio dar reivindicações que a tripulação pedia. Fomos atendidos mas não me lembro bem o nome do navio. Mas me parece que é o navio Santos. Os galinhas verdes quebramos todas as sedes deles e todos os locais, etc.
Meu parecer é justo e acho que não se devia ficar de braços cruzados na situação que estava o 21, mas não vacilo em afirmar que Quintino e mais alguns de seu comando fizeram esse movimento comprados para impedir a boa marcha do movimento libertador com Prestes à frente. Este é o meu ponto de vista. Enquanto Mamede e Dante, o último dia que os vi foi no dia 28 (?) às oito horas do dia em Baixa Verde. Perguntei o que devíamos fazer e a resposta foi: cada um tome seu destino. Eu perguntei e os grupos guerrilheiros, não vamos fazer? Me disseram depois já não, e retiram-se. Minha reação rompendo mais e mais de 40 léguas; Eu e a companheira e um jovem e o encarregado do trabalho sindical; este último não resistiu a viagem, ficou vinte léguas distantes de Natal e assim ficamos 3 só, e assim viajamos 12 dias e chegamos ao Estado de Pernambuco. Fomos presos, estivemos todos numa cadeia, e lá encontramos preso um estivador camarada bom, um herói, a meia noite do dia 7 de dezembro fomos retirados desta prisão com ameaça de morte, nós quatro estávamos firmes, dispostos para tudo. Afinal não tiveram apetite. Nesta mesma noite fomos para Recife, para o Brasil Novo. Lá, depois de ouvidos, minha companheira foi posta em liberdade. Lá no Brasil Novo encontrei mais camaradas. No dia 8 foi solto dois dos que achei no Brasil Novo. E na noite de 9 às 2 horas da madrugada fui com mais companheiros para a Detenção; Lá estivemos com os companheiros até o dia 13-1-1936 às 5 e meia hora da tarde quando fomos postos em liberdade. Na Detenção encontrei Roupa Velha que foi preso no dia 28 de 12 de 35 em Garanhuns. Ele ainda não foi solto porque deu dois nomes e me parece que ele está um pouco enrascado. Nós saímos porque tivemos tática. Não de comprometer a linha.
O que vi em toda parte é muita satisfação do povo sobre esta arrancada da ANL; nas cadeias todos animados e satisfeitos. Vi grande quantidade de jovens na cadeia alegres, dando vivas a ANL a Prestes e ao P.C; jovens de 16 anos lutaram e confessou que lutaram as autoridades da Detenção. Fizemos greve de protesto.
A todo momento circulou a Folha do Povo e o Preso Proletário, lá, na Detenção. A massa e os soldados confiam na linha do CC e esperam em pouco tempo outra arrancada e os camponeses lutando com armas na mão e o lenço vermelho no pescoço e fita vermelha no chapéu; as casas dos camponeses enfeitadas de bandeirinhas vermelhas de papel nas portas.
Caros camaradas, aguardo a solução vossa sobre a minha situação, como já expliquei ao camarada Abelardo. Eu penso que aqui no Norte não posso mais trabalhar, não conheço medo para cumprir com as tarefas que entregam, assim eu aguardo as resoluções dessa carta e mais breve possível.
De mim e da minha companheira, camaradas, saudações” (ass. SANTA. 16.1.936) (2).



NOTAS:


1-     Praxedes é identificado como Mamede,  “nome de guerra que utilizou durante a Insurreição”, por Moacyr de O Filho. Na página 7 do Documento 6-C, de 16.1.36, “Santa” diz que “Mamede e Dante, o último dia que os vi foi no dia 28 (?) às oito horas do dia em Baixa Verde. Perguntei o que devíamos fazer e a resposta foi: cada um tome seu destino. Eu perguntei, e os grupos guerrilheiros, não vamos fazer? Me disseram depois, já, não, e retiram-se”. Documento 6-C, página 7 dos “Excertos da publicação: “Arquivos da Delegacia Especial de Segurança Política e Social - Volume - III - Polícia Civil do Distrito Federal e Social - Volume III - Polícia Civil do Distrito Federal-Rio”- 1938. Movimento Comunista de 1935 (Trechos de documentos apreendidos pela Polícia do Distrito Federal, Imprensa Oficial – Natal - 1938. Arquivos de João Alfredo Lima e Roberto Monte, Natal-RN).     Ainda  na  página 92 de ‘Praxedes: Um Operário no Poder”, o seu autor diz que José Praxedes ficou afastado da atividade partidária durante o Estado Novo, mas sabe-se que ele foi afastado do PCB por ter praticado irregularidade nas finanças do partido. Praxedes usou o nome de guerra de “Blücher” na insurreição de 35 em Natal, segundo me informou, por telefone, Giocondo Dias, meses antes de falecer, após marcarmos uma entrevista que não aconteceu.  O início da transcrição do “Documento 6 – C” está na reportagem “Muita confusão e traição na intentona”.

2-     “Santa” era o codinome do mestre-de-obras João Lopes de Souza, conforme relato de José Praxedes de Andrade ao jornalista Moacyr de Oliveira Filho, no livro “Praxedes: Um operário no Poder”, Editora Alfa-Ômega, São Paulo, 1985, página 50. Ver, ainda, “Velhos Militantes”, de Angela Castro Gomes, Dora Rocha Flaksman e Eduardo Stotz, p. 95, Jorge Zahar Editor, 1988 – Rio de Janeiro/RJ.

DIAS:  ERREI AO MANDAR FUZILAR TRÊS

Algumas colocações do Secretário-Geral do Partido Comunista Brasileiro-PCB, Giocondo Dias,  publicadas na   reportagem da edição de O Poti de 30.06.85, foram contestadas por algumas testemunhas dos acontecimentos da “novembrada de 35” em Natal. Indagados pelo repórter, os escritores e historiadores Manuel Rodrigues de Melo, Otacílio Cardoso e Clóvis Travassos Sarinho (este último foi o médico que tratou dos ferimentos superficiais de Giocondo,  na noite em que rebentou o levante militar), negaram euforia popular nas ruas de Natal. Manuel Rodrigues afirmou que andou, a pé, pelas ruas sem ser incomodado pelos revoltosos.
O veterano comunista Poty Aurélio Ferreira, que não ingressa no PCB porque é prestista, disse que “houve ajuntamentos no quartel do 21º BC” e que desconhece qualquer notícia de realização de comícios em Natal durante a Revolução de 35.
“Se o ambiente era de revolução, como é que se poderia promover comícios?, indagou Poty Aurélio. Ele é uma das pessoas que asseguram que muitas coisas ainda não foram reveladas sobre a revolução de 1935, inclusive sobre fatos que antecederam ao movimento. Por exemplo: as pessoas que financiavam o Partido Comunista. Alguns financiadores das atividades do PCB se passavam por conservadores...
Giocondo mentiu?
O médico-cirurgião Clóvis Travassos Sarinho desmente que Giocondo Dias tenha passado a noite do dia 23 de novembro de 1935 no Hospital Juvino Barreto (ex-Miguel Couto, ex-Miguel Couto, ex da Clínicas e hoje Hospital Universitário Onofre Lopes). Giocondo disse que no tiroteio da rua São Tomé foi ferido com três tiros e que, na manhã do dia 24 de novembro de 35, “quando os médicos me examinaram e verificaram que os ferimentos não tinham gravidade que se pensava, cai fora do hospital. Vi que podia andar e fui para o quartel”.
Segundo o Dr. Sarinho, esse relato de Giocondo não tem fundamento.  Apesar do Dr. Sarinho não querer tocar no assunto, soubemos que Giocondo Dias foi ferido gravemente na fazenda “Primavera”, município de Lages, de propriedade de um amigo.
O acontecimento da “Fazenda Primavera”, no qual Giocondo foi salvo por um sargento da Polícia Militar do RN, Genésio Cabral, não foi abordado na entrevista que o chefe do PCB deu a três jornalistas do jornal “Voz da Unidade”, órgão do extinto Partidão,  em dezembro de 1981, em São Paulo: José Paulo Netto, Luiz Arturo Obojes e Regis Frati.
Sarinho, por ouvir dizer, pois não participou do movimento revolucionário – era integralista -, disse que Otacílio Werneck não provocou o seu matador,  Epifânio Guilhermino, motorista de Guglielmo Letieri.
Eis as versões do Dr. Sarinho sobre algumas afirmações de Giocondo Dias, publicadas nesta série de reportagens:

1-     Não houve comícios durante o domínio dos comunistas em Natal, por ocasião da Revolução de 1935. A população da cidade permaneceu em casa com receio de sair à rua, e não se faz comício sem povo.

2-     Cabo Giocondo Dias apresentava dois pequenos ferimentos em um antebraço. Foi feito o atendimento entre 20 e 21 horas, e logo após o paciente retirou-se, voltando no dia seguinte (domingo, 24), pela manhã, para novos curativos. Os outros médicos do Hospital eram os Drs. Otávio Varela, Ernesto  Fonseca, Aderbal de Figueiredo, Raul Fernandes e  Antônio  Martins Fernandes. Eu chefiava a clínica cirúrgica dos indigentes desde o mês de agosto. Os médicos não se encontravam no Hospital na noite do sábado quando lá cheguei, porque nenhum deles tinha obrigação a cumprir àquela hora.
3-     Alguns dias depois que os revolucionários abandonaram Natal e fugiram para o interior, o Dr. Onofre Lopes tratou de ferimentos em  Giocondo Dias. Não foi hospitalizado.

4-   Cheguei no sábado à noite, às 20 horas, e só me retirei do Hospital na terça-feira à tarde. O Tte Zuza Paulino chegou ao Hospital pouco depois das 15 horas do domingo, apresentando um ferimento grave, depois de terminado o ataque ao Quartel da Polícia, onde se houve com muita bravura em defesa da legalidade. Sofreu amputação do braço em seção plana, praticada pelo cirurgião Dr. José Tavares. Soube por informações de um amigo que o oficial foi morto há alguns anos em Mato Grosso.

5-     Não houve provocação no caso de Otacílio Werneck. Ele foi morto no domingo pela manhã no portão de sua casa. É de causar estranheza que o Sr. Giocondo  Dias tenha esquecido o sapateiro José Praxedes (2), que, na formação do governo revolucionário, ocupou o Ministério do Abastecimento, juntamente com Lauro Lago, Ministro do Interior, João Batista Galvão, Ministro da Viação, José Macedo, Ministro das Finanças e o sargento músico  Quintino, Ministro da  Defesa. Esta notícia foi dada pelo jornal “A LIBERDADE”, órgão do governo revolucionário, informando ainda que os ministros foram aclamados pelo povo em praça pública. Acontece que o governo da revolução foi organizado em Vila Cincinato, e o povo não tomou conhecimento do fato.

Natal. 04.07.85

Clóvis Travassos  Sarinho

FUZILAMENTOS


Terceira e última parte da transcrição do capítulo “1935, novembro: O Levante de Natal (Giocondo Dias: Os objetivos dos comunistas, Editora Novos Rumos, São Paulo, 1983). As transcrições foram publicadas nas edições de O Poti, de 23.06, 30.06 e 07.07.85.
Embora as comunicações na época devessem ser bem difíceis, Natal já estava derrotada quando o Rio de Janeiro sublevou-se, não é verdade?
Giocondo – Acredito que sim. Nós sabíamos – reafirmo – que Natal sozinha não resistiria. Por isso, procuramos espraiar nossa ajuda para outros Estados. Nós tínhamos consciência de que o que decidia era Recife, coisa que a reação também sabia. Antes de nos atacar, ela fez convergirem forças para Recife.
Quando solicitado a contar coisas interessantes sobre o levante em Natal, Giocondo disse que “algo muito divulgado foi a difamação de que teríamos executado fuzilamentos. O que aconteceu foi o seguinte: quando eu resolvi sair do hospital e cheguei ao quartel, o Cabo Carneiro, que era uma das pessoas mais ativas, um homenzarrão forte e violento, chegou para mim e disse: - O quartel de Polícia está resistindo, eu vou desertar...
Avisou que ia desertar!
Giocondo – É, avisou que ia cair fora, com fulano e sicrano. Eu disse:  - não faça uma coisa dessas.  Logo após, fui ao Quintino, que era um homem muito bonachão, e falei: - olhe, o Carneiro disse que vai desertar, com fulano e sicrano, etc... É  melhor você prender ele logo. O Quintino foi ao Carneiro: - Vê se larga desta idéia de deserção porque o homem (era eu) levou um tiro na cabeça e manda lhe fuzilar. Foi ai que ele desertou mesmo. Ele foi até bom, podia ter me matado, eu estava desarmado... Ele desertou com os outros. Minha atividade foi a de passar um telegrama para um sargento que estava em Panelas, município perto de Natal, dizendo: Prenda fulano, sicrano e beltrano e fuzilem-nos. E assinei. Ora, este telegrama serviu de pretexto para dizerem que eu tinha ordenado fuzilamentos em geral...”
Mais detalhes sobre “Um depoimento Político – 1935, novembro: o levante de Natal”, está no livro “Os objetivos dos comunistas”. (Endereço da  Editora Novos  Rumos Ltda: Praça Dom José Gaspar, 30, 21º andar,  SP, CEP. 0147 – telefone (011)231-2538.


EM 35, OS CORONÉIS FUGIRAM DA LUTA


Em depoimento inédito nos anais da historiografia do Rio Grande do Norte, o ex-prefeito de Santana do Seridó, Seráfico Batista, conta os lances dramáticos do tiroteio na ‘Serra do Doutor” , então distrito de Santa Cruz, hoje no município de Campo Redondo-RN, a “Batalha de Itararé” cabocla, ocorrida no final da tarde do dia 25 de novembro de 1935, entre sertanejos aliciados pelos integralistas e chefes políticos, de um lado, e os revolucionários aliancistas, comunistas e militares, de outro.
Na luta da “Serra do Doutor”, morreram três soldados do Exército, enquanto mais de 100 insurretos, que procediam de Natal , fugiram em caminhões e a pé. Alguns deles foram presos depois; outros, trancafiados na delegacia de Polícia de Currais Novos, cujo delegado mandou matá-los numas grotas das cercanias da cidade        ( localidade Serra da Dorna).
“Na hora do pega-pra-capá muita gente corria com medo. Os fazendeiros e os chefes políticos faziam os preparativos, mas na hora do fogo, todos eles tinha viajado pra longe. Isso aconteceu nos tiroteios ocorridos em Panelas (hoje Bom Jesus) e na Serra do Doutor, perto de Campo Redondo. Por exemplo; em Panelas, o contigente de homens que saiu de Parelhas para dar combate aos revoltosos que saíram de Natal, foi comandado pelo “coronel” Florêncio Luciano, 2º Tenente Pedro Siciliano Lustoza, da Polícia Militar, comerciante Kalil Habib, Sérgio Ricarte, Raimundo Luz, médico Graciliano Lordão e por mim.
A cidade de Panelas foi cercada por tropas do Exército. Ai o fogo foi tão grande que fomos obrigados a recuar às carreiras, sendo que muitos dos nossos abandonaram as armas, veículos e equipamentos por lá”.
A declaração é do ex-prefeito de Santana do Seridó, Seráfico Batista, 74 anos, motorista aposentado, residente à rua Caetanópolis, 4806, Conjunto Pirangi, Natal, testemunha dos dois importantes episódios da insurreição liderada pelos membros do Comitê Regional do Partido Comunista do Brasil-PCB, agremiação mais ativa da Aliança Nacional Libertadora que combatia o fascimo e Getúlio Vargas.

“CORRI DE QUATRO PÉS”

Em 1935,  Seráfico Batista tinha 24 anos, era motorista e dono de um caminhão, além de fazer parte do tiro de guerra de Parelhas, cidade seridoense próxima à Jardim do Seridó, terra do ‘Coronel” João Medeiros. “Naquele tempo, o tiro de guerra de Parelhas tinha 70 homens, que foram alistados para a resistência contra os comunistas, comandado pelo sargento José Nunes, da Polícia  Estadual. Esse povo todo foi para Panelas, onde tivemos que recuar e voltar para Currais Novos. O Sr. Miguel dos Santos deu a idéia de voltarmos para a serra, onde botamos cercas de pedras, com 2 metros de largura, enquanto o tenente Pedro Siciliano mandou que fizéssemos as trincheiras para proteger-nos durante o tiroteio. Por isso, passamos a segunda-feira carregando pedras e cavando as trincheiras. Mataram um boi e descarregaram 30 cargas de rapadura, que vieram em lombos de jumentos. Essa comida seria consumida no jantar, do qual iriam participar o doutor Lordão e Florêncio Luciano, que passaram o dia num barracão que existia na Serra do Doutor. Muitas latas d’água foram transportadas para o pessoal, mas nada deu certo porque, às 17h30, foram buscar o jantar e chegou a notícia de que os rebeldes estavam se aproximando. Nessa hora, os chefes do contingente disseram que nós devíamos permanecer ali, esperando “a tropa federal que vai chegar da Paraíba”. “Esperem por eles e não atirem”, disseram. Mas, às 18h30, apareceram uns 10 caminhões e automóveis cheios de soldados com lenços vermelhos no pescoço. Explodiram a cerca de pedras. Os comunistas tiraram uma metralhadora pesada de um caminhão e começaram a atirar. Era bala pra danado, e teve gente que não conseguiu disparar um tiro, porque não tinha condições de botar a cabeça para fora do buraco (trincheira). O tiroteio terminou às 07h30 da noite. Ai o medo tomou conta de nós e resolvemos correr, pois eles estavam atirando contra nós, a uns 30 metros de distância. Além disso, os comunistas estavam em baixo, e nós em cima. Somente o sargento José Nunes atirava e gritava muito. Eu quase ficava soterrado com areia que caiu em cima de mim. A areia era jogada pelas balas dos comunistas que batiam no chão, em cima das trincheiras, e o poeirão cobria no mundo. Eu fiz carreira quando o tiroteio serenou. Entrei no meio do mato e andei um quilômetro de quatro pés. Antes de fugir, eu disse para os companheiros: “Pode aparecer comunistas em banda de lata, mas eu não vou mais lutar”. Eu pensava que aquela expedição para a Serra do Doutor seria um passeio, uma brincadeira.  Além disso, todo mundo tinha medo de comunista. Quando notei que estava sendo enganado, pois os fazendeiros ricos não tiveram coragem de ir aos locais dos tiroteios, a solução foi fugir para os cafundós. Corri da Serra do Doutor até  Currais Novos, onde vi muita gente jogar as armas no chão dos hotéis, das casas e correr mundo afora”, conta Seráfico Batista.

POUCAS MORTES


Ele revelou que 150 ou 200 homens participaram do tiroteio na Serra do Doutor, onde os revoltosos foram impedidos de prosseguir a suposta viagem de fuga. Seráfico informou que morreram 3 soldados do Exército, do 21º Batalhão de Caçadores de Natal, local em que explodiu a insurreição militar de novembro de 35.
Três veículos foram destruídos na explosão da cerca de pedras, cujos explosivos foram colocados pelos integralistas de  Carnaúba dos Dantas. Ele recorda que um dos caminhões pertencia à firma natalense “Severino Alves Bila”.
“Depois do tiroteio, os comunas deram ré nos seus carros e caminhões e tomaram destino ignorado, segundo eu soube no dia seguinte ao tiroteio na Serra do Doutor. Acho que foi na terça ou quarta-feira, que muita gente saiu de Currais Novos, inclusive eu, para ver os escombros na Serra. Nesse retorno ao local da “batalha”, muita gente começou a contar histórias fantasiosas, que tinha sido o valente e coisas e tal. Na minha opinião, fomos derrotados na Serra do Doutor porque os soldados eram pessoas treinadas no Exército, enquanto nós não tínhamos conhecimento de tática de guerra. O Pedro Siciliano, que era delegado de Parelhas, não era homem treinado para a guerra, mas para ser policial", acrescenta Seráfico Batista, prefeito de Santana do Seridó de 1964 a 1968.
Seráfico confirma que o então industrial e fazendeiro de Caicó, Dinarte de Medeiros Mariz, foi uma das pessoas que aliciaram os sertanejos para a luta na Serra do Doutor e Panelas, além de Kalil Habib (sírio), Florêncio Luciano, Graciliano Lordão, padre Walfredo Gurgel  e outros proprietários rurais do Seridó, já falecidos.
As forças aliciadas pelos fazendeiros e políticos seridoenses viajaram para Natal depois do dia 28 de novembro de 35, entrando na capital potiguar sem encontrar nenhuma resistência.  Seráfico Batista não se lembra dos nomes dos integralistas que participaram das refregas, em virtude de Parelhas não ter núcleo de seguidores de Plínio Salgado. Parelhas era feudo de Florêncio Luciano e os coronéis conservadores não admitiam camisas verde nos seus pastos.
“Quando fugíamos de Panelas para Currais Novos, paramos em Santa Cruz, que estava cheia de homens com camisas verdes. Comunicamos que tínhamos fugido de Panelas por causa da resistência dos comunistas. Então, meu filho, foi gente pra danado correndo no meio do mundo. As mulheres, com criança nos braços, corriam pra cima dos caminhões. Foi um corre-corre grande”, afirma, sorrindo, Seráfico Batista.

CARTA

O advogado e escritor Bianor Medeiros, que está acompanhando a série de reportagens sobre o movimento comunista no RN, enviou carta sobre trecho de matéria publicada na edição de 09.06.85, deste jornal.  Eis a carta na íntegra:

Natal(RN), 14 de Junho de 1985.
Caro Luiz Gonzaga Cortez.

Tendo lido com a atenção devida, suas reportagens sobre o Movimento Integralista Brasileiro, nos idos de 1935.
No último Poti de 09/06 você diz:
“ Mas a primeira pessoa, nos cinquenta anos que falou a verdade sobre o episódio de novembro de 1935, na Serra do Doutor, foi Dona Otávia Bezerra Dantas, natural de Acari, integralista que em entrevista publicada em O Poti de 26.08.84, disse que o padre Walfredo Gurgel estava em Santa Luzia/PB e o fazendeiro e “coronel” Dinarte de Medeiros Mariz, tinha viajado para Campina Grande em busca de armas e munições.  Conforme declarações de Seráfico Batista e Otávia Bezerra Dantas, dentre inúmeras pessoas que estavam em local da refrega, não houve nenhum general da Serra do Doutor.
Mantenho o que disse no meu trabalho “ Monsenhor Walfredo Gurgel um Símbolo”;  contesto as declarações de Dona Otávia ( mando-lhe, até, uma fotografia do seu casamento celebrado pelo vigário do Acari, Pe. Walfredo Gurgel) e de Seráfico, parelhense que também conheço.
Ambos devem ser mais velhos do que eu:  justificam-se, portanto, ditas revelações.
Sei que Walfredo estava na Serra do Doutor e, até comandou os serviços preparatórios do contra-ataque.
Sei, também, que o Senador Dinarte Mariz não estava presente à Serra porque teve a missão de viajar à Paraíba para recrutar reforços, o que foi feito, embora tardiamente em virtude da debelação do movimento em contra-ataque efetuado por seridoenses de várias cidades, principalmente Carnaúba dos Dantas.
Indico-lhe uma pessoa que viajou com o Pe. Walfredo Gurgel em sua Sedan verde, e nova, comprada quando chegou a Acari, como vigário, até a Serra do Doutor e que poderá tudo historiar.  Não é testemunho de “ ouvi dizer” é testemunha “ de vista”.
Seu nome:  JOSÉ  PACHECO (Hotel Tirol).  Bom seria que o amigo o ouvisse para que fosse a verdade colocada em seu devido lugar.
Um abraço.

BIANOR MEDEIROS

 


NA SERRA DO DOUTOR NÃO HOUVE VITÓRIA




Segundo o hoteleiro José Pacheco, 68 anos, o então padre Walfredo Gurgel foi o primeiro a descer do carro que carregava “gente importante” para o combate na Serra do Doutor, em novembro de 1935, quando os insurretos pretendiam fugir sem destino, em virtude do fracasso da revolução comunista. Giocondo Dias, em entrevista publicada nesta série de reportagens, afirmou que a coluna de revolucionários que esteve na Serra do Doutor, do dia 25.11.35, era uma tentativa de manutenção do governo ‘Popular Revolucionário’, no interior do RN.
Monsenhor Walfredo, que era padre nesse tempo, foi o primeiro homem a carregar pedras para a barreira que colocaram na subida da Serra do Doutor. Depois que ele carregou seis pedras, chegou um caminhão com o pessoal que o Monsenhor Walfredo tinha aliciado em Acari para lutar contra os comunistas. Esse pessoal deu um “duro” danado. Em seguida, chegou um caminhão carregado de rapaduras, carne de charque e muita comida. Apareceram uns oficiais da Polícia Militar e como não tínhamos tomado nenhuma decisão, pois a tarde estava terminando, resolveram organizar a defesa na serra. Vi muita gente, umas 300 a 400 pessoas. Lembro-me bem de Olivier, Orestes e Walter Cortez no meio desse povo. Apareceu o sargento da PM, conhecido por “Severinho da Cazuzinha” (ele era filho de Severino Bezerra) e o tenente Pedro Siciliano. “Todo recruta fica aqui em baixo. Quem já serviu o Exército, os que sabem atirar, ficarão lá em cima. Por volta das 17h e 30h a poeira começou a aparecer no horizonte. Era a poeira dos carros dos revolucionários. Pedro Siciliano mandou que devíamos atirar quando os revolucionários estivessem cercados na subida, perto da barreira de pedras. Um sargento da Polícia, de Caicó, estavam com umas bombas. “transvalianas”, cheias de pregos. Quando os comunistas apareceram, esse sargento jogou essas bombas, iniciando um tiroteio danado, obrigando-me a me esconder com medo das bombas. Eu não dei um tiro na  Serra do Doutor. Não sei o tempo que durou o fogo cercado, mas lembro-me que os comunistas tinham uma metralhadora pesada atirando contra nós. Depois do tiroteio, vi muita gente fugindo nos caminhões, inclusive Walfredo Gurgel. Dinarte Mariz tinha ido para à Paraíba. Alguém disse na fuga para o padre Walfredo: “não temos medicamentos e gasolina, mas vamos buscar em Currais Novos”. Era só motivo para a fuga, mas o padre Walfredo mandou José dos Santos vender gasolina e avisou Tristão de Barros, que tinha uma farmácia em Currais Novos, que preparasse medicamentos para qualquer eventualidade. Eu soube que, quando Tristão de Barros (pai de ex-Reitor Genibaldo Barros) estava embalando os medicamentos, apareceu gente gritando “tá todo mundo fugindo da Serra”. Eu voltei para a Serra do Doutor, a fim de levar as quatro caixas de gasolina, num Chevrolet pavão. Na Ladeira do Boi Chôco encontrei o meu grupo e ainda assisti uns 20 minutos de tiroteio. Do lado dos comunistas, morreram quatro pessoas, inclusive um soldado do Exército, um rapazinho louro. Soube que morreram dois homens que foram feridos na Serra, mas não sei quem matou-os. Lembro-me que Ivo Trindade matou um soldado que estava em cima de um caminhão. Em resumo, acho que o tiroteio da Serra do Doutor não teve vencedores nem vencidos. Enquanto uns corriam para um lado, outros corriam para outro lado. Foi uma batalha de frouxos, pois todo mundo corria, inclusive eu. Olivier caiu no escuro, cortou o rosto e foi medicado em Campo Redondo, por exemplo. A única pessoa que ficou na cidade de Currais Novos foi o médico Mariano Coelho, que se improvisou como telegrafista e ficou mandando mensagens para Natal sobre a situação. Dinarte Mariz não esteve na Serra do Doutor, mas foi o grande aliciador de sertanejos. Sem ele não teria havido resistência no Seridó. Dinarte foi uma espécie de general, de um chefe, apesar de não ter  ido para o combate na Serra do Doutor”, disse José Pacheco.
Depois do tiroteio na serra, vários sertanejos rumaram para a cidade paraibana de Santa Luzia do Sabugi, onde existia uma ordem de Dinarte Mariz para entregar os presos à Polícia da Paraíba. “E assim foi feito”, diz Pacheco, acrescentando ainda que o major Antônio de Castro, da Paraíba, foi o comandante de 300 pessoas aquarteladas em Santa  Luzia do Sabugi. Dois dias depois, recebemos a notícia de que a revolução tinha acabado e todo mundo retornou para o Seridó do RN. “A ida do nosso grupo para Santa Luzia fazia parte de um plano para enfrentar possíveis revolucionários naquela região da Paraíba”, adiantou Pacheco. Ele considerou o episódio como uma aventura que lhe rendeu um emprego na Prefeitura de Natal, por determinação do governador Rafael Fernandes, pois o prefeito Gentil Ferreira de Souza resistiu muito a assinar a sua nomeação.
Funcionário aposentado da Prefeitura do Natal, Pacheco diz que tem boas recordações de Djalma Maranhão. “Em 1964, o capitão Lacerda, do Exército, me interrogou e queria que eu dissesse que Djalma Maranhão era comunista. Eu não aceitei a ameaça e disse que Djalma não era comunista, mas já tinha sido comunista na juventude. Djalma me dizia que o comunismo não medra no Brasil”, completou José Pacheco.(N. do A: o sr. José Pacheco faleceu a 11 de julho de 1996, em Natal).



MÉDICO FOI O COMANDANTE DA REVOLUÇÃO NO AGRESTE

O ex-prefeito de Santo Antônio do Salto da Onça, a 90 quilômetros de Natal, Lindolfo Gomes Vidal, que fugiu da cidade poucos minutos antes da chegada das tropas revolucionárias de novembro de 1935, disse que os rebeldes não administraram o município porque a população tinha fugido. “Faltou povo para eles governarem”, disse.
Já o tabelião aposentado Lourival Cavalcante da Silva, que era cafeísta, mas amigo de Lindolfo Vidal, do Partido Popular, disse que o governo revolucionário dominou Nova Cruz, Pedro Velho e Santo Antônio, sem encontrar fortes resistências. “Os rebeldes andavam com lenços encarnados nos pescoços”, afirmou Lourival, que chorou ao relatar os episódios ocorridos entre 25 e 27 de novembro de 1935, na sua cidade natal.
Durou quase três dias o “governo revolucionário popular” na região Agreste do Rio Grande do Norte, em novembro de 1935. O domínio começou na manhã do dia 25 e terminou na madrugada do dia 27, quando tropas da Polícia Militar da Paraíba invadiram a cidade de Santo Antônio do Salto da Onça, sede do ‘Comitê Revolucionário”, comandado pelo médico Orlando Azevedo, formado na Alemanha. Os revoltosos eram cafeístas “sequiosos de vingança” pela vitória eleitoral de Rafael Fernandes, o donatário da época, além de meia dúzia de comunistas e integrantes da Aliança Nacional Libertadora.
Os insurretos ocuparam as cidades Santo Antônio, Pedro Velho e Nova Cruz, sem nenhum derramamento de sangue, apesar de vários tiroteios ocorridos entre as forças policiais e os pelotões de soldados e civis liderados por Orlando Azevedo. Na época (ainda hoje continua assim), a região era dominada econômica e politicamente pelas tradicionais famílias conservadoras - os Simonetti, os Barbalho, os Azevedo, os Vidal, os Carvalho, etc.  Os Azevedo eram adversários dos Barbalho. E a revolução de novembro foi uma oportunidade para um acerto de contas entre os grupos familiares-oligárquicos.
Nomeado no dia 2 de novembro de 1935 para o cargo de interventor municipal de Santo Antônio do Salto da Onça, Lindolfo Gomes Vidal, 93 anos, ainda com boa disposição física, estava na sua cidade quando rebentou o movimento revolucionário em Natal. Ao lado da mulher, Manuela Ferreira Vidal, Lindolfo Vidal, que se diz homem de muita coragem, conta o que foi o regime comunista de 35, na região de sua influência política:
“No domingo, Lulu Fagundes trouxe a notícia de que havia um movimento na capital, mas não sabia do que se tratava. Ele me pediu que eu saísse da cidade, mas eu não queria sair porque tinha a Polícia do Estado comigo pra “receber” quem chegasse. Terminei saindo de Santo Antônio para a fazenda do Jucá, do meu pai, e no meio do caminho ouvi os primeiros disparos de armas de fogo. Eram os revolucionários que estavam atacando Santo Antônio. No outro dia, 26, dormi na cada de José Domingos, na “Fazenda Malhadinha”, de onde mandei um rapaz chamado Cícero ir a Santo Antônio ver como estavam as coisas. Cícero foi e voltou com as notícias: Santo Antônio estava ocupada pelos homens de Orlando Azevedo, mas toda a população tinha fugido para as fazendas e sítios. A minha residência foi invadida e saqueada pelos soldados, que me roubaram um rifle novinho. Na casa de Gentil Garcia, vendedor de gasolina, os revoltosos levaram o combustível para os caminhões que transportavam suas tropas. Não tenho notícias de que houve mortes, mas eles deram uns tiros dentro de minha casa, que ficou imprestável. O prédio da Prefeitura ficou intacto. Eles dominaram a cidade, mas não deixaram nenhum documento de ato administrativo do “governo revolucionário”.  Eu voltei no dia 30 de novembro, sábado, depois que tudo tinha voltado ao normal”, conta Lindolfo Gomes Vidal.
O chamado “governo revolucionário” de novembro de 35 na região Agreste não está registrado nas obras de Hélio Silva, João Maria Furtado, João Medeiros Filho e de qualquer outro historiador brasileiro ou estrangeiro. Não se sabe o porquê.

CONDENADO

Lindolfo Vidal, que era do Partido Popular, de José Augusto Bezerra de Medeiros, disse que os elementos cafeístas participaram da revolução para “acertar as contas” com ele. “Se eu não tivesse fugido, eles tinham me matado”. Segundo Lindolfo Vidal, que exerceu uma interventoria e quatro mandatos de prefeito de Santo Antônio, o único documento que possuía sobre os episódios de 35 foi roubado por um grupo de oficiais da Marinha, por volta de 1969, que estiveram em Santo Antônio, fazendo investigações sobre possíveis irregularidades administrativas na prefeitura local. “Ao invés de combaterem a corrupção, esse grupo de militares praticou extorsão e roubo”, disse Lindolfo. O bando era integrado pelos tenentes Jaime, Rubens e outro, cujo nome não se lembra. Mas o tal tenente Rubens se interessou por papéis de 1935 que estavam comigo e pediu-os emprestado para tirar cópias. Até hoje não me devolveu”, disse Lindolfo.

A PRISÃO E FUGA DO CHEFE

Lourival Cavalcante da Silva, 72 anos, residente em Brejinho/RN, à Rua Antônio Alves Pessoa, 822, é escrivão aposentado de uma memória extraordinária. Ele assistiu os principais acontecimentos de novembro de 35, na região Agreste do RN.
- A revolução de 35 chegou aqui como uma coisa proveniente da Aliança Social (denominação dos grupos políticos liderados por Mário Câmara, interventor, e João Café Filho, líder operário, eleito deputado federal em 1934). Muito tempo depois disseram que era uma revolução comunista. Eu não sei, só sei que quem era contra o Partido Popular, cafeísta ou não -eu era cafeísta - entrou no movimento. Os revoltosos chegaram de Natal, compraram toda gasolina de Gentil Garcip e não pagaram, seguindo para Nova Cruz, depois de darem uns tiros no quartel dos soldados da Polícia, em Santo Antônio. Era uma segunda-feira, quando o doutor Orlando Azevedo seguiu para Nova Cruz, onde as tropas sob seu comando, atacaram e dominaram o quartel da polícia.  Todos os soldados foram desarmados e levados presos para Natal. Ele deu uns tiros na feira e botou o povo pra correr, acabando com a feira da cidade. A loja A Paulista foi invadida. Deixou alguns seguidores “governando” Nova Cruz e retornou para Santo Antônio, com um lenço vermelho no pescoço. Eu estava lá e vi tudo. Para voltar para Santo Antônio, peguei uma carona no pára-choque do carro do velho Rodopiano, pai do Dr. Orlando. Quando chegamos no “Riacho da Piranga”, João Saburana entregou um bilhete de Aníbal Barbalho, com o seguinte teor: “Orlando não entre na cidade que Lindolfo está impiquetado com a polícia. Não sacrifique a família”. Isso aconteceu no primeiro dia do domínio deles aqui, mais ou menos. Orlando desceu do carro e tomou outro rumo. Eu voltei para Santo Antônio, a pé, e assisti o quebra-quebra na casa de Lindolfo Vidal, que não se encontrava na cidade. Além de Orlando Azevedo, um rapaz chamado Nelson Dimas chefiava o movimento revolucionário que não governou de verdade porque não tinha gente na cidade. Era um deserto. Uma coisa que achei inédita: certo dia, às 13h, os galos cantavam nos terreiros. O quartel dos revoltosos era na casa de Manuel Fernandes, - que também tinha fugido com medo - onde hoje funciona o Primeiro Cartório de Santo Antônio. Quando souberam que a revolução tinha fracassado, os revoltosos fugiram. Na tarde de quinta-feira, chegaram 14 caminhões cheios de soldados da Polícia da Paraíba. Os soldados entraram na cidade tocando cornetas e cantando. Por conta da política local, muita gente se envolveu. Orlando Azevedo foi preso na localidade “Mão Curta”. Luiz Ciríaco e Domiciano, meu irmão, também foram presos. Orlando, que era adversário de Lindolfo Vidal, foi levado para o quartel da Polícia em Natal, de onde, dias depois, facilitaram a sua fuga para ele pegar o trem que passava atrás do quartel. Dias depois ele voltou a ser preso em Pedro Velho por ordem do juiz Osvaldo Grilo. Respondeu a inquérito, foi condenado a vários anos de prisão e cumpriu parte da pena na Paraíba. Em 1942 ou 43, Orlando foi solto. Era um homem caridoso, mas se envolveu na política local e terminou assassinado em 1954, por Benedito de tal, que morreu em seguida, vingado por Zé Binga, morador do doutor Orlando.  Edgar Azevedo não participou da Revolução de 35, pois estava estudando medicina no Rio de Janeiro”, afirmou Lourival Cavalcante da Silva.(N. do A: o sr. Lindolfo Gomes Vidal faleceu com 104 anos de idade, em  18 de julho de 1996. Ver O Poti de 18.07.1999, p.4, Cad. Esportes).


A MATANÇA DE CURRAIS NOVOS


Continua repercutindo a entrevista do ex-prefeito de Santana do Seridó, Seráfico Batista, publicada na última edição de O POTI, com o título “Em 35, os coronéis fugiram da luta”.  Alguns leitores telefonaram para a redação para confirmar as informações prestadas por Seráfico Batista. O parelhense Jaime de Oliveira disse que “até hoje tem gente correndo com medo do tiroteio da Serra do Doutor”, e que não existiu nenhum “general” no meio dos sertanejos que ofereceram resistência aos revoltosos. Segundo Jaime de Oliveira, alguns soldados da PM foram promovidos por “atos de bravura”, sem terem disparado um tiro na Serra do Doutor.
Mas a primeira pessoa, nos últimos 50 anos, que falou a verdade sobre o episódio(1) de novembro de 35, na Serra do Doutor, foi dona Otávia Bezerra Dantas, natural de Acari, integralista, que em entrevista publicada em O POTI de 26.03.84, disse que o padre Walfredo Gurgel estava em Santa Luzia-PB e o fazendeiro e “coronel” Dinarte de Medeiros Mariz tinha viajado para Campina Grande em busca de armas e munições. Conforme declarações de Seráfico Batista e Otávia Bezerra não houve nenhum “General da Serra do Doutor”.
Na historiografia sobre os acontecimentos de novembro de 1935 no RN, apenas João Maria Furtado, na página 139 do seu livro “Vertentes”, registra a matança de revoltosos na cidade de Currais Novos. ... Narrou-me o Dr. José Bezerra de Araújo, político udenista que chegou a exercer a senatória pelo Estado e que pegou em armas contra o movimento de novembro de 1935, que, após sua derrocada, elementos do Partido Popular tiraram da cadeia de Currais Novos presos de justiça que lá se achavam e os que eram adversários políticos foram sumariamente fuzilados, depois de conduzidos a lugar ermo, fora da cidade”, escreveu João Maria Furtado, desembargador aposentado e vítima da violenta repressão policial ordenado por Rafael Fernandes. Furtado era cafeísta.
O ex-deputado estadual Segundo Saldanha, 85 anos natural de rejo do Cruz-PB, agrônomo aposentado do Ministério da Agricultura, residente em Natal, disse ao repórter que no tiroteio de Panelas (Bom Jesus) fugiu muita gente depois dos primeiros disparos. “Só ficou Adonias Galvão, que era muito gordo e não pode correr, e findou sendo preso pelos comunistas. O pessoal voltou para a Serra do Doutor, onde Dinarte fugiu para a Paraíba. Em Currais Novos, muita gente dormiu debaixo das camas, depois do tiroteio da Serra do Doutor, onde houve uma partilha de dinheiro que os comunistas deixaram por lá. Quem ficou rico foi Zé Epaminondas”, relembra Segundo Saldanha, que foi deputado estadual durante quase 20 anos.
Sobre a matança de presos da delegacia de Currais Novos, ele afirma: “O sargento José Bastos, o delegado, foi quem algemou e matou os presos”. Em 35, Segundo Saldanha, residia no Povoado Bulhões, município de Acari. Não gostava de Café Filho, mas simpatizava com Mário Câmara. Tinha horror a integralista, pois considerava o integralismo de Plínio Salgado como “um movimento verde por fora e vermelho por dentro”. A mesma opinião tinha os coronéis e os senhores de terras do Seridó do Rio Grande do Norte.



NOTA:


1-   Otávia Bezerra Dantas, João Maria Furtado, Segundo Saldanha, José Pacheco, Lindolfo Gomes Vidal, Poty Aurélio Ferreira, João Medeiros Filho e Enéas Araújo são falecidos. Em outubro de 1998, o sr. João Wanderley encontrava-se paralítico e desmemoriado.Hoje, 19 de novembro de 2012, todos estão falecidos.